Publicado originalmente no Brasil 247
O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez Parrilla, condenou os Estados Unidos por ampliarem o bloqueio contra a ilha e de elevarem a pressão política, econômica, energética e militar sobre o país. Em discurso neste sábado (2), no Encontro Internacional de Solidariedade com Cuba “Por um mundo sem bloqueio: solidariedade ativa no Centenário de Fidel”, o chanceler afirmou que a ofensiva de Washington atinge diretamente a vida cotidiana da população cubana.
No pronunciamento, Rodríguez agradeceu ao movimento internacional de solidariedade com o povo cubano e classificou como “histórica e vibrante” a mobilização realizada em Cuba, que, segundo ele, reuniu mais de 500 mil pessoas em Havana e mais de 5 milhões em todo o país.
O chanceler afirmou que Cuba vive “um momento particularmente perigoso para a humanidade e para Cuba” e associou o cenário internacional à normalização do uso da força, à proliferação de medidas coercitivas unilaterais e ao desrespeito ao direito internacional. Ele afirmou que a ilha permanece “na mira do imperialismo”.
Rodríguez citou o memorando do subsecretário Mallory, de 1960, como a primeira formulação dos objetivos do bloqueio contra Cuba. Segundo o ministro, a essência da política dos Estados Unidos segue sendo “provocar fome, desespero e a derrubada do governo”.
O chefe da diplomacia cubana afirmou que o endurecimento do bloqueio nos últimos dez anos teve consequências sociais, humanitárias e econômicas severas. Ele mencionou a adoção de 243 medidas coercitivas desde 2019 e disse que elas intensificaram tentativas de privar Cuba de suprimentos, especialmente combustível.
Ao tratar da pandemia de Covid-19, Rodríguez acusou Washington de agravar restrições nas áreas de saúde, equipamentos médicos e medicamentos. Ele afirmou que o povo cubano “jamais” esquecerá episódios como a negação de ventiladores e a obstrução do fornecimento de cilindros de oxigênio medicinal.
O ministro também criticou uma medida adotada em 29 de janeiro deste ano, pela qual os Estados Unidos ameaçaram com retaliação tarifária países, empresas ou organizações empresariais envolvidos na exportação de combustível para Cuba. Para ele, a decisão equivale, na prática, a um bloqueio energético absoluto.
“É um ato de guerra”, afirmou Rodríguez, ao comparar a medida a um bloqueio naval. Segundo ele, a ação se soma ao bloqueio econômico e aos efeitos acumulados de mais de 60 anos de sanções contra Cuba.
O chanceler sustentou que as restrições ao combustível afetam diretamente o transporte, os serviços médicos, o sistema de saúde e a vida de milhões de cubanos. Ele disse que a política de Washington busca “semear o desespero” ao atingir crianças, idosos, doentes e famílias em todo o país.
Rodríguez afirmou que Cuba precisa importar parte do petróleo bruto e do combustível necessários para sustentar sua população e sua economia. Segundo ele, essa importação ocorre no exercício de direitos internacionalmente reconhecidos, como a liberdade de comércio e navegação.
Para o chanceler, o bloqueio não representa apenas um ataque contra Cuba, mas também contra as prerrogativas soberanas de outros Estados. Ele definiu a política norte-americana como “um ato inaceitável de intimidação contra qualquer país”.
Apesar da pressão, Rodríguez afirmou que as consequências para Cuba não são ainda mais severas por causa da organização socialista da economia, que, segundo ele, é centrada no ser humano, nas famílias e na justiça social. Ainda assim, disse que o impacto sobre a população é diário e palpável.
O ministro afirmou que a resposta cubana está na mobilização popular. “Nosso povo está determinado a superar as adversidades e seguir em frente, mesmo nas piores circunstâncias”, afirmou.
Rodríguez destacou que Cuba produz quase metade do petróleo bruto que consome e que agora pode refiná-lo com novas tecnologias cubanas. Ele também citou reservas de níquel e cobalto, terras aráveis, água, indústrias e setores biomédico e farmacêutico como ativos estratégicos do país.
“Mas, acima de tudo, temos o povo cubano, a força motriz da Revolução Cubana”, declarou.
O chanceler também acusou setores baseados nos Estados Unidos de tolerarem e promoverem atos violentos contra Cuba. Segundo ele, há incitação diária à violência e à sedição a partir do território norte-americano.
Além do bloqueio econômico, Rodríguez denunciou o programa governamental multimilionário de guerra cognitiva contra o povo cubano. Segundo ele, a estratégia busca desinformar, desorientar, desmobilizar, enfraquecer a identidade nacional e atingir a unidade do povo cubano em torno do Partido Comunista, da Revolução e de sua liderança.
O ministro afirmou que o confronto ocorre também nos campos simbólico e digital. Ele citou o Colóquio Internacional Pátria, realizado em Cuba, como exemplo de construção de uma plataforma de coordenação para atuação digital progressista, revolucionária e de esquerda.
Rodríguez mencionou que, em abril, nos dias próximos à comemoração da vitória de Cuba na Baía dos Porcos, 18 milhões de pessoas participaram de conversas digitais sobre o país. Segundo ele, a convergência entre a memória da invasão, declarações de autoridades dos EUA e a caracterização do bloqueio como ato de genocídio por lideranças de esquerda ampliou a projeção internacional do tema cubano.
O chanceler afirmou que, nas redes sociais, a possibilidade de uma agressão militar direta dos Estados Unidos contra Cuba deixou de ser apenas especulação e passou a integrar debates institucionais no mundo. Ele apontou como temas centrais o bloqueio do petróleo, a solidariedade internacional, a manipulação dos direitos humanos e os efeitos da comunicação cubana.
O ministro confirmou que Cuba iniciou um processo de intercâmbio com o governo dos Estados Unidos, mas afirmou que isso não é extraordinário. Ele disse que Havana já dialogou com praticamente todas as administrações norte-americanas desde o triunfo da Revolução.
Segundo Rodríguez, Fidel Castro, Raúl Castro, Miguel Díaz-Canel e a liderança do Partido, do Estado e do governo sempre estiveram dispostos a dialogar de forma respeitosa, séria e responsável sobre divergências profundas. Ao mesmo tempo, ele frisou que o sistema político e econômico cubano não está em negociação.
“A ordem política e econômica de Cuba não faz parte desse intercâmbio, de forma alguma”, afirmou. “Jamais discutiremos com os Estados Unidos assuntos que digam respeito exclusivamente à soberania, independência e autodeterminação dos cubanos.”
Rodríguez declarou que Cuba continuará comprometida com o processo de construção socialista e com a defesa da justiça social. “Esta é a Revolução dos humildes, com os humildes e para os humildes”, disse.
O chanceler também reforçou que Cuba seguirá vinculada às causas anti-imperialistas e internacionalistas. “Sabemos que Cuba não está sozinha”, afirmou, ao agradecer à solidariedade internacional.
Em outro trecho do discurso, Rodríguez citou uma entrevista de rádio concedida em 8 de janeiro pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o chanceler, ao ser questionado sobre medidas adicionais de pressão econômica contra Cuba, Trump afirmou: “…bem, não acho que se possa exercer muita pressão maior do que entrar e destruir tudo”.
Rodríguez também mencionou declarações recentes de Trump sobre Cuba. Ele citou: “…falando de um lugar chamado Cuba, do qual tomaremos o controle quase imediatamente”. O ministro cubano citou ainda outra frase de Trump: “Agora Cuba tem problemas, terminaremos com um primeiro, no retorno do Irã”. “No retorno do Irã faremos com que venha um dos nossos grandes, talvez o porta-aviões USS Abraham Lincoln, o maior do mundo. Ele vai parar a cerca de 100 jardas, uns 90 metros da costa de Cuba, e os cubanos dirão, muito obrigado, nós nos rendemos”.
Rodríguez classificou como “infame mentira” a designação de Cuba como ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos. Ele afirmou que Washington estabeleceu sanções secundárias contra pessoas, entidades e empresas que realizem atos vinculados a Cuba, mesmo sem relação direta com interesses norte-americanos no país.
Segundo o chanceler, a medida representa “um passo extremamente agressivo e inédito” na aplicação extraterritorial do bloqueio. Ele também criticou a opacidade da ordem executiva, afirmando que a falta de divulgação sobre pessoas ou entidades designadas amplia o efeito de intimidação.
Rodríguez afirmou que as áreas citadas como prioridade por Washington incluem energia, defesa, metais, mineração, segurança e finanças. Ele disse que uma folha informativa distribuída pelo governo dos Estados Unidos reforçou, de forma ameaçadora, referências a recentes êxitos militares norte-americanos.
O ministro questionou qual justificativa poderia existir para uma eventual agressão militar contra Cuba e advertiu sobre as consequências regionais de uma ação desse tipo. Ele mencionou riscos de destruição, sofrimento, desestabilização no Caribe e impacto sobre rotas comerciais e aéreas.
Rodríguez afirmou que Cuba age com responsabilidade e se prepara para qualquer eventualidade, inclusive uma agressão militar direta. Ao mesmo tempo, disse confiar que “a razão e o bom senso” prevaleçam.
“Cuba não ameaça ninguém”, afirmou. “Cuba resiste também graças a vocês, porque não está sozinha. Cuba se defende, se defende com ideias e se defenderá com armas.”
O chanceler encerrou o discurso reiterando que não há justificativa para um ataque contra Cuba e que a ilha manterá a defesa de sua independência, soberania e autodeterminação socialista diante das pressões dos Estados Unidos.
