Por Sayid Marcos Tenório*
Durante décadas, o projeto sionista vendeu ao mundo uma imagem cuidadosamente construída de uma democracia moderna, militarmente invencível, moralmente superior e destinada à permanência histórica. Hoje, essa narrativa desmorona diante dos olhos do mundo.
Mas esta crise não nasceu ontem.
Às vésperas dos 78 anos da Nakba, a catástrofe palestina de 1948, que marcou a expulsão em massa de centenas de milhares de palestinos, a destruição de vilas inteiras e a consolidação formal de um projeto colonial de assentamento sobre a Palestina histórica, torna-se impossível dissociar a crise atual de suas raízes fundacionais.
O que se vê em Gaza não é uma ruptura com a história de “Israel”. É a continuação radicalizada da lógica que o fundou.
O que entra em crise não é apenas Benjamin Netanyahu ou um governo extremista particularmente brutal. O que colapsa é o próprio projeto sionista enquanto estrutura política assentada sobre ocupação, apartheid, supremacia étnico-religiosa e guerra permanente.
Netanyahu não criou essas contradições. Apenas as acelerou, radicalizou e expôs sem disfarces.
Durante anos, setores ocidentais sustentaram a ficção de que “Israel” seria uma democracia vibrante temporariamente sequestrada pela extrema-direita. Essa narrativa ignora um fato elementar de que não existe democracia real construída sobre a negação sistemática dos direitos de um povo originário.
O primeiro grande colapso é militar.
Durante décadas, “Israel” construiu a mitologia da invencibilidade. Seu exército foi apresentado como tecnicamente imbatível e capaz de impor derrotas rápidas e decisivas.
Gaza destruiu esse mito.
Após meses de devastação massiva, destruição de hospitais, escolas, universidades e campos de refugiados, “Israel” fracassou em alcançar seus objetivos declarados. A resistência palestina segue operante. Múltiplas frentes de tensão expuseram vulnerabilidades estratégicas inéditas.
Quando um regime precisa destruir civis em escala industrial para simular força, é porque sua força real já entrou em declínio.
Mas a crise vai além do campo militar.
Projetos coloniais sobrevivem enquanto conseguem convencer seus colonos de que há futuro. Esse consenso começa a ruir.
O medo permanente, a insegurança e a perda de confiança no aparato estatal produzem um fenômeno devastador para qualquer colonialismo de assentamento, o da fuga dos colonos importados durante anos.
Quando os próprios ocupantes passam a abandonar o projeto que deveriam consolidar, a crise deixa de ser política e torna-se existencial.
E aqui emerge um contraste devastador.
O povo palestino, submetido a massacres, deslocamento forçado e destruição sistemática, continua demonstrando apego à terra, resiliência e capacidade de resistência.
Já o ocupante, apesar de seu arsenal militar, revela sinais crescentes de fragmentação e ausência de horizonte estratégico.
O paradoxo é brutal, pois quem perdeu casas preservou esperança; quem possui superioridade militar perdeu confiança no futuro.
No plano econômico, as fissuras também se aprofundam.
Guerras prolongadas corroem economias, afastam investimentos e comprometem a estabilidade material necessária para qualquer projeto estatal.
Nenhum regime colonial sobrevive apenas da força militar.
Quando economia, segurança e legitimidade entram simultaneamente em crise, o colapso deixa de ser conjuntural.
No plano diplomático e moral, talvez o golpe seja ainda mais profundo.
O genocídio televisionado em Gaza demoliu a principal blindagem narrativa do sionismo, que é a imagem de vítima permanente usada como escudo moral.
A percepção global mudou.
Para amplos setores da opinião pública internacional, “Israel” já não aparece como democracia sitiada, mas como regime de apartheid, ocupação e violência estrutural.
Ao tentar isolar Gaza, “Israel” acabou isolando a si mesmo.
Nunca a bandeira palestina esteve tão presente nas ruas do mundo. Nunca a solidariedade internacional foi tão visível. Nunca a legitimidade moral do projeto sionista foi tão amplamente questionada.
Internamente, a implosão é igualmente grave.
A sociedade israelense encontra-se profundamente fragmentada. O consenso político que sustentava o regime está rompido. O judiciário perdeu credibilidade. O parlamento tornou-se refém da radicalização extremista. A coesão social deteriora-se rapidamente.
Mas talvez a questão central seja a de que “Israel” não fracassa apesar de sua natureza supremacista. Fracassa precisamente por causa dela.
Um Estado fundado sobre supremacia étnico-religiosa, expulsão de povos originários e guerra permanente carrega contradições insolúveis.
O sionismo prometeu segurança, entregou guerra interminável; Prometeu normalidade, entregou militarização total; Prometeu permanência, entregou crise existencial.
Às vésperas dos 78 anos da Nakba, a história parece cobrar sua fatura.
Projetos construídos sobre expulsão, colonização, apartheid e negação sistemática dos direitos de um povo podem impor sofrimento por décadas. Mas não escapam indefinidamente às contradições inscritas em sua própria origem.
Netanyahu deixará o poder. Mas a questão histórica é se o projeto que ele encarnou sobreviverá à crise que ajudou a acelerar. Talvez estejamos assistindo não à crise de um governo. Mas à decomposição histórica de um projeto colonial supremacista que alcançou seu ponto de não retorno.
*Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2. Ed. Anita Garibaldi/Ibraspal, 2022).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
