Norman Finkelstein lota auditório na Feira do Livro e denuncia genocídio palestino

Publicado originalmente no site Resistência

Centenas de pessoas enfrentaram longas filas para ouvir um dos mais importantes intelectuais do mundo sobre a Palestina

Por Natália Araújo e Ana Laura Iwai (*) – Muito antes do início da mesa “Holocausto e Palestina”, realizada na tarde de 4 de junho, na programação oficial da Feira do Livro de São Paulo, a movimentação no entorno do Auditório do Museu do Futebol já indicava que aquele seria um dos encontros mais disputados de toda a programação.

Norman Finkelstein na Feira do Livro nesta quinta (4) – Felipe Iruatã/Folhapress

Centenas de pessoas formaram filas que se estenderam por horas na Praça Charles Miller, em busca de uma vaga para acompanhar a participação do cientista político norte-americano Norman Finkelstein. Muitos vieram de outros estados especialmente para assistir à atividade. Todos aguardaram por mais de duas horas para garantir um lugar no auditório.

A procura foi tão grande que a capacidade do espaço foi rapidamente esgotada. Enquanto dezenas conseguiram entrar, outras centenas permaneceram do lado de fora, impedidas de acessar o auditório por questões de lotação e segurança. Para muitos presentes, a cena simbolizava algo maior: o crescimento do interesse dos brasileiros pela causa palestina e a disposição de compreender, para além das versões predominantes na mídia tradicional, o que Finkelstein e diversos organismos internacionais classificam como genocídio palestino.

A atividade integrou a programação oficial da Feira do Livro e marcou o lançamento da edição brasileira de A Indústria do Holocausto (Autonomia Literária, 2026). A conversa foi mediada pela jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo.

Mas, para boa parte do público, a atração principal não era apenas o lançamento de um livro. Era a oportunidade rara de ouvir presencialmente um dos mais importantes estudiosos contemporâneos do conflito Israel-Palestina, referência intelectual para movimentos de solidariedade ao povo palestino em todo o mundo.

Quem é Norman Finkelstein

Norman Finkelstein é um cientista político, escritor e ativista norte-americano conhecido internacionalmente por suas críticas ao sionismo e às políticas do Estado de Israel.

Filho de sobreviventes do Gueto de Varsóvia e de campos de concentração nazistas, nasceu em Nova York, em 1953. Formou-se pela Universidade de Binghamton e concluiu seu doutorado em Ciência Política pela Universidade de Princeton, em 1987.

Ao longo da carreira, lecionou em instituições como a Universidade de Nova York (NYU), Brooklyn College e Universidade DePaul.

Sua obra mais conhecida, A Indústria do Holocausto, tornou-se referência mundial ao analisar o uso político da memória do genocídio nazista. Em outros trabalhos, dedicou-se ao estudo da ocupação dos territórios palestinos, das violações de direitos humanos na Cisjordânia e do bloqueio imposto à Faixa de Gaza.

Sua trajetória acadêmica também foi marcada por perseguições políticas. Em 2007, teve sua permanência negada na Universidade DePaul após uma intensa campanha promovida por opositores de suas posições sobre Israel. Em 2008, foi declarado persona non grata pelo governo israelense e proibido de entrar no país durante dez anos.

Mesmo afastado dos grandes centros acadêmicos, seus debates, conferências e entrevistas continuaram alcançando milhões de pessoas por meio da internet, consolidando-o como uma das cinco vozes mais influentes da atualidade no debate sobre Palestina e o genocídio em curso.

A presença de Finkelstein na Feira do Livro representou muito mais do que uma atividade literária. Para muitos participantes, o encontro simbolizou o fruto de décadas de mobilização de movimentos sociais, organizações de direitos humanos, entidades estudantis e grupos de solidariedade ao povo palestino que vêm denunciando a ocupação israelense e, mais recentemente, o genocídio palestino em Gaza.

O perfil do público refletia essa diversidade: havia estudantes, pesquisadores, professores, jornalistas, integrantes de movimentos populares, representantes da comunidade árabe, militantes de direitos humanos e leitores que acompanham há anos a trajetória intelectual do pesquisador.

Em diversos momentos da atividade, suas respostas foram interrompidas por aplausos. A atenção da plateia também impressionava. Durante as falas mais densas sobre história, geopolítica e direito internacional, o silêncio predominava no auditório.

A sensação compartilhada por muitos presentes era a de estarem diante de um dos mais importantes intérpretes contemporâneos da questão palestina.

A atualidade de “A Indústria do Holocausto”

Ao ser questionado sobre a atualidade de sua obra mais conhecida, Finkelstein fez questão de esclarecer um ponto que considera frequentemente mal compreendido.

Segundo ele, A Indústria do Holocausto não é um livro sobre o Holocausto em si.

“O livro não era sobre o Holocausto. O livro era sobre a instrumentalização e a exploração política da memória do Holocausto”, afirmou.

Finkelstein explicou que seu objetivo foi investigar como a memória do genocídio nazista passou a ser utilizada politicamente por determinadas organizações e governos.

Ao relacionar essa discussão com a situação atual, argumentou que, após os acontecimentos de 7 de outubro de 2023, houve uma tentativa de mobilizar novamente a memória do Holocausto para legitimar as ações israelenses.

Mas, segundo ele, essa estratégia perdeu eficácia.

“Chegou um momento em que essa referência deixou de funcionar.”

Na avaliação do pesquisador, a escala da destruição provocada em Gaza transformou profundamente a percepção mundial sobre Israel.

Uma das ideias mais recorrentes durante toda a conversa foi a percepção de que o consenso internacional que, durante décadas, protegeu Israel de críticas amplas está se rompendo.

Para Finkelstein, o genocídio palestino provocou uma mudança histórica na opinião pública global. Segundo ele, aquilo que antes era considerado uma posição marginal passou a ocupar espaço crescente no debate público.

Ao mesmo tempo, observou que essa transformação não ocorreu espontaneamente. Ela é resultado de décadas de trabalho de pesquisadores, jornalistas independentes, movimentos sociais e organizações de direitos humanos que documentaram sistematicamente as condições impostas aos palestinos.

Questionado sobre o ambiente político nos Estados Unidos, Finkelstein reconheceu que hoje existe muito mais espaço para críticas a Israel, mas alertou que o medo continua presente.

Segundo ele, professores universitários, médicos e trabalhadores de diferentes áreas ainda evitam se posicionar por receio de perder empregos, contratos ou oportunidades profissionais. Ao recordar sua própria trajetória, homenageou intelectuais como Noam Chomsky, que assumiram posições críticas quando isso representava um risco muito maior.

Outro tema central da atividade foi a tentativa de associar críticas a Israel ao antissemitismo. Finkelstein rejeitou essa equivalência.

Segundo ele, o antissemitismo é uma forma de hostilidade irracional contra judeus e não pode ser confundido com críticas às políticas de um Estado. Ao mesmo tempo, alertou para os riscos de ressentimentos dirigidos contra pessoas judias que não possuem qualquer responsabilidade pelas ações do governo israelense. Ainda assim, criticou aquilo que considera uma ampliação artificial do conceito de antissemitismo para silenciar críticas ao Estado de Israel.

Hamas, 7 de outubro e os limites da narrativa oficial

Ao comentar os acontecimentos de 7 de outubro, Finkelstein afirmou que houve crimes graves, defendeu a necessidade de investigações independentes e de uma análise baseada em evidências verificáveis.

Uma das partes mais polêmicas da atividade ocorreu quando contestou alegações de que o Hamas teria adotado o estupro como política sistemática de guerra. Segundo ele, os relatórios disponíveis não sustentam essa conclusão.

Sua defesa não foi do Hamas, mas do princípio de que acusações dessa gravidade devem ser sustentadas por provas sólidas.

“Precisamos seguir as evidências”, afirmou.

Ao analisar as causas da violência de 7 de outubro, Finkelstein recorreu a exemplos históricos, como revoltas de escravizados nos Estados Unidos. Foi nesse contexto que apresentou uma das reflexões mais marcantes do encontro:

“Você humilha pessoas. Você degrada pessoas. Você tira delas qualquer esperança de uma vida digna. Depois pergunta por que algo terrível aconteceu.”

A frase foi seguida por silêncio absoluto no auditório e, logo depois, por uma longa salva de palmas.

Finkelstein insistiu diversas vezes em uma distinção que considera fundamental: “Compreender não é justificar.”

Segundo ele, analisar as condições históricas que produzem determinados acontecimentos não significa aprová-los moralmente.

Questionado sobre o futuro da Faixa de Gaza, Finkelstein demonstrou profundo pessimismo. Hospitais, universidades, escolas, bairros inteiros e sistemas de infraestrutura foram destruídos e, em sua avaliação, a reconstrução exigirá muitos anos, mesmo que os ataques terminem imediatamente.

Também se mostrou cético quanto à capacidade da comunidade internacional de impor uma solução política duradoura. Para ele, o principal desafio continua sendo romper a impunidade que permitiu a continuidade do genocídio palestino diante dos olhos do mundo.

Embora o encontro tenha proporcionado ao público brasileiro o contato com um dos mais importantes estudiosos da questão palestina no mundo contemporâneo, parte da plateia demonstrou a percepção de que a entrevista inicial poderia ter explorado de forma mais profunda a trajetória intelectual e a produção acadêmica de Finkelstein, ainda mais sendo realizada por uma das mais aclamadas jornalistas do Brasil, Patrícia Campos Mello.

Questões relacionadas à Palestina, ao direito internacional, às transformações geopolíticas recentes e às décadas de pesquisa desenvolvidas pelo autor acabaram sendo aprofundadas principalmente durante as perguntas do público.

Ainda assim, a força do encontro não esteve apenas nas perguntas formuladas, mas sobretudo nas respostas oferecidas por um intelectual que há décadas desafia consensos políticos e acadêmicos sobre Israel e Palestina.

Ao final da atividade, a fila para autógrafos se estendeu por dezenas de metros. Muitos dos presentes sabiam que dificilmente teriam outra oportunidade de ouvir pessoalmente um pesquisador que se tornou referência mundial na denúncia das violações de direitos humanos cometidas contra os palestinos.

O auditório lotado, as filas formadas horas antes do início da atividade e o grande número de pessoas que ficaram do lado de fora demonstraram que o interesse dos brasileiros pelo tema foi subestimado.

Mais do que uma palestra, a presença de Norman Finkelstein na Feira do Livro transformou-se em um retrato do momento político atual: um público cada vez mais disposto a ouvir, estudar e debater a realidade palestina a partir de vozes historicamente excluídas dos grandes espaços de poder e comunicação.

(*) Natália Araújo – Jornalista, especialista em Políticas Públicas e membra do Núcleo Palestina PT/SP; Ana Laura Iwai – Jornalista e membra do Núcleo Palestina PT-SP