Por Sayid Marcos Tenório*
O 3 de julho marca mil dias do início da guerra genocida em Gaza. E impõe a constatação de que “Israel” acumulou uma superioridade militar avassaladora, mas não alcançou seu principal objetivo político.
A destruição foi imensa, a tragédia humanitária alcançou níveis sem precedentes e milhares de vidas foram perdidas. Ainda assim, a questão palestina permanece viva, a Resistência continua atuando e a Palestina ocupa hoje um espaço ainda maior na agenda internacional.
Desde 1948, sucessivos governos israelenses buscaram resolver o conflito pela força. Em Gaza, a estratégia voltou a apostar que a superioridade militar seria suficiente para eliminar a resistência e encerrar definitivamente a reivindicação nacional palestina.
Mil dias depois, essa expectativa não se confirmou.
A guerra devastou cidades inteiras, mas não destruiu a identidade de um povo nem sua aspiração à autodeterminação. Essa é a principal lição do conflito.
Guerras podem produzir vitórias táticas, mas nem sempre alcançam seus objetivos estratégicos. A experiência histórica demonstra que nenhum poder militar consegue extinguir uma causa nacional sustentada por memória, pertencimento e vontade política.
A guerra também colocou em xeque a capacidade de dissuasão do regime sionista, um dos pilares da estratégia israelense.
Durante décadas, a superioridade tecnológica e militar foi apresentada como garantia de segurança e estabilidade regional.
Entretanto, um conflito prolongado, a permanência da resistência e a abertura de múltiplas frentes de tensão alimentaram um debate crescente sobre os limites desse modelo.
A força continua existindo. A capacidade de “Israel” produzir soluções políticas, porém, tornou-se muito mais questionada.
Ao mesmo tempo, “Israel” enfrenta um desgaste internacional sem precedentes.
O país mantém importantes aliados, sobretudo os Estados Unidos, mas sua imagem política e moral passou a ser submetida a um intenso escrutínio global.
As críticas em organismos internacionais, o aumento das ações judiciais, a mobilização de universidades, sindicatos e movimentos sociais, revelam uma mudança profunda na percepção pública do conflito.
Talvez esta seja a maior derrota política produzida pela guerra.
A Palestina deixou de ser vista apenas como um conflito regional e tornou-se um símbolo global das lutas por autodeterminação, justiça e igualdade na aplicação do Direito Internacional.
Sua bandeira passou a representar, para milhões de pessoas, a denúncia do colonialismo, da ocupação e da seletividade com que normas internacionais são aplicadas.
Os mil dias de guerra também expuseram a crise da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto aumentavam as denúncias sobre violações do Direito Internacional Humanitário, crescia a percepção, especialmente entre os países do Sul Global, de que as instituições multilaterais são incapazes de responder com a mesma firmeza quando os interesses das grandes potências estão em jogo.
Essa crise de credibilidade fortaleceu o debate sobre uma ordem internacional mais multipolar e menos seletiva.
A grande ironia desses mil dias é que a estratégia destinada a marginalizar a Palestina produziu o efeito inverso.
Nunca a causa palestina mobilizou tantas manifestações, debates acadêmicos, campanhas internacionais e solidariedade popular em diferentes continentes. Gaza tornou-se um símbolo político mundial.
O legado desses mil dias vai muito além do campo de batalha. A guerra demonstrou que a superioridade militar não basta para resolver conflitos de natureza histórica e nacional.
Mais do que isso, revelou que a legitimidade política e moral se tornou um elemento tão decisivo quanto o poder das armas.
A Palestina continua sem um Estado soberano, mas sua causa jamais esteve tão presente na consciência política mundial. Os primeiros mil dias desta guerra demonstraram que um regime de ocupação pode reduzir cidades a escombros, mas jamais conseguirá demolir a identidade, a memória e o direito de um povo originário à liberdade e à autodeterminação.
*Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2. Ed. Anita Garibaldi/Ibraspal, 2022).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
