O Horror da Mídia e o Caso Venezuela!

A mídia, representada pelos mais diversos tipos de veículos, desde o pós-guerra sempre se mostrou adepta a determinado tipo de ideologia, especialmente a que representa as altas elites dos países, a quem estes veículos estão ligados. Esta situação não é diferente na América Latina, assim como não é diferente em outros lugares do mundo. Só que de uns tempos para cá, especialmente no Brasil, os ataques tem sido virulentos, especialmente aquilo que consideram diferente da linha de pensamento que representam. Ou seja, tudo aquilo que se refira a povo ou aos movimentos sociais ligados a esquerda, em qualquer lugar. Os interesses destes grupos são os mesmos: a tentativa de retomada do poder, para a garantia dos privilégios que tinham no passado. O caso exemplar, neste contexto é a Venezuela, onde a mídia brasileira, refletindo os seus parceiros na própria Venezuela, mente, desmerece o governo, inventa fatos e até mesmo tenta reescrever a história.

O foco agora é o fechamento das emissoras de televisão e rádios irregulares no país e as centenas de processos que vigoram contra o dono da Globovisión, principal emissora do país ainda em atividade. Gostaria de pontuar que sou a favor da liberdade de imprensa e do acesso a informação como bem essencial e por outro lado, sou contra a mentira , a parcialidade e a desinformação, como fazem a mídia daquele país, que é refletida aqui também por grandes grupos, como o Estadão, Folha, Editora Abril e as Organizações Globo. Vamos aos fatos.

Numa entrevista na conhecida e parcial revista Veja, o presidente da Globovisión, grupo de mídia venezuelano e que controla centenas de outros órgãos como rádios e jornais no país inteiro, falava sobre os processos que correm na justiça contra ele e traz no bojo da entrevista, diversas informações, que para não dizer mentirosas, são parciais ou falsas, que a luz de qualquer pesquisa histórica cairiam por terra. Fala que o governo não manda informações oficiais, por isto não divulga informações sobre o governo e somente sobre a oposição.  Conta também que o golpe de 2002 não existiu e que foi um movimento legítimo e por fim, afirma que Chávez só é querido porque tem o talão de cheques. Estas mesmas afirmações estão nos nossos jornalões também, com ataques provenientes de repórteres, seguindo a linha editorial dos jornais e também de figuras iminentes como Mário Vargas Llosa, escritor da direita mais retrógrada que sempre dominou o nosso continente.

Vamos aos fatos que Guillermo esqueceu de contar e que são facilmente encontrados hoje na Internet e meios de comunicação coerentes, como Carta Capital e o próprio portal Vermelho. A negação do golpe na Venezuela em 2002 é a mesma negação que muitos fazem de que o “genocídio judaico na segunda guerra não existiu”. O mesmo tipo de isenção que se pede para o golpe de 2002 é o que pedem para Hitler por te feito uma coisa que simplesmente “não aconteceu”. Chávez, em 2002, foi deposto do poder e preso no dia 11 de Abril e segundo os seus opositores, golpistas ligados ao Fedecámaras (Sindicato Patronal), a CTV (Central de trabalhadores também ligada ao patronato), a militares de alta patentes e a  imprensa, entre elas os principais órgãos de comunicação da Venezuela, como a RCTV (que teve a renovação da concessão não aprovada) e a Globovisión. A própria Globovizión anunciou a “renúncia” do presidente várias horas antes do acontecimento de fato, demonstrando a premeditação do fato. Ao supostamente sair, Chavéz deveria ter sido substituído de acordo com a constituição pelo Vice-presidente, o que não aconteceu, assumindo assim o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, que se tornou o presidente golpista por dois dias. Quebrar a constituição, depor o presidente, dar golpe de estado é considerado em vários países do mundo, inclusive os Estados Unidos, crime de traição, que merece ser punido com cadeia e no caso de empresas privadas, com o fechamento. A Globovisión não foi só uma participante do golpe de 2002, mas uma das empresas que lideraram o movimento.

Se a CNN, nos Estados Unidos, resolvesse tramar um golpe contra o país e a constituição e o golpe fosse descoberto e derrotado, certamente seria fechada no outro dia, por traição a pátria. Isto não aconteceu na Venezuela. Os golpistas foram anistiados e as empresas que participaram, como a PDVSA , a RCTV e o grupo de mídia de Guillermo permaneceram em atividade. Até mesmo Chavéz quando tentou dar um golpe em 1992 foi preso e cumpriu a sua pena, pagando pelo movimento que liderou. No golpe de 2002, Guillermo ressalta que foi uma reação popular. Como reação popular, se o golpe durou 2 dias (11 a 13 de Abril) e quando Chavez voltou ao poder, mais de 1 milhão de pessoas estavam nas imediações do Palácio Miraflores esperando o seu retorno, numa cidade (Caracas) que tem 5 milhões de pessoas. Será que o “povo” agüentaria só dois dias. A verdadeira resposta popular veio depois, com as sucessivas vitórias de Chavéz em diversos referentes e eleições depois de 2002, inclusive o referendo que pedia a sua saída. Estes processos sempre foram acompanhados por observadores internacionais, que consideram os processos absolutamente limpos. Por estas questões, a justificativa de que Chavéz mantém o poder só porque tem o talão de cheques, também se torna absurda. Outra análise histórica também dismistificaria isto. A Venezuela sempre foi até 1989, rica e poderosa e nem assim, as elites deste país conseguiram manter o poder.

Estive na Venezuela, em 2008, por ocasião do 11 de Abril e fiquei até o dia 14 de Abril, onde pude acompanhar no dia 13 de Abril, a comemoração dos 6 anos de derrota do golpe de estado. Pude também perceber o quanto a mídia venezuelana, alijada dos seus privilégios, trata a todo o momento a derrubada do governo. No dia anterior ao dia 13 haviam duas informações: a primeira que dizia que o governo estava “obrigando” as pessoas a irem para rua e o segundo era não falar absolutamente nada sobre o governo. No dia 13, não havia ninguém forçando as pessoas a irem para as ruas. Aliás, mais de 2 milhões de pessoas foram as ruas. Foram para celebrar um governo, que criou creches, escolas, universidades, hospitais, que erradicou o analfabetismo, que aumentou a qualidade de vida de um dos países mais desiguais das Américas no final do século passado.

E, para finalizar e demonstrar a desinformação, quando voltei no dia 14 e estava no Aeroporto de Caracas para embarcar de volta resolvi comprar os jornais para saber um pouco mais sobre a manifestação. Qual não foi minha surpresa, ao constatar que nenhum dos 11 jornais que comprei não falavam absolutamente nada. Quer mais!!

P.S. Os jornais estão a disposição de quem quiser vê-los, comigo!!

Adriano Gomes é pedagogo, Teólogo e Especialista em Política e Relações Internacionais
Membro do Cebrapaz-SP
Pesquisou o caso “Venezuela” durante vários anos
http://dialogarepoliticar.blog.terra.com.br

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