Impérios e democracia

Por Zillah Branco*

A cultura dominantena nossa época continua a construir conceitos herdados do passado sem umadevida adequação à realidade presente. Raramente são discutidas, por exemplo,as deformações de comportamento derivadas de hábitos ancestrais de submissãoaos poderosos e a repetição dos seus preconceitos sociais, apesar das condiçõesatuais ofereçam conhecimento e recursos institucionais apoiados em leisdemocráticas.

Com a introdução política dos princípios de liberdade, igualdade e fraternidadeque a Revolução Francesa (1789) lançou no mundo, foram adotados conceitosdemocráticos na linguagem política que nem sempre são transmitidosculturalmente, e só vagarosamente, incentivam mudanças no raciocínio individuale social que promovem novas mudanças no comportamento individual e social.

Apesar das importantes conquistas sociais de caráter democrático – o fim daescravidão como sistema, o combate ao racismo e ao machismo como instrumentosde discriminação social, a condenação jurídica do abuso de poder nassociedades, o combate aos sistemas oligárquicos e autoritários pela criação deinstituições jurídicas e oficiais de Estado que seguem os princípiosdemocráticos estabelecidos nas Constituições nacionais – em pleno século XXIainda surgem manifestações, políticas e individuais, de submissão ao mais fortecom a falsa justificação do protecionismo que reforça o poder de um e afragilidade do outro.

Dominados pela alienação social, ou pelo oportunismo pessoal, continuam adesejar um "dono" rico e forte que resolva os problemas da sociedade à suamaneira, mesmo que cometendo injustiças e impedindo a população dependente dealcançar sua autonomia e afirmação de dignidade. A propaganda da superioridadedas elites que detêm o poder econômico e político, e com eles o social, como sefossem detentores de discernimento mental e capacidades acima de todo o povomantido no atraso e na condição subalterna de trabalhador dependente, naverdade faz uso dos velhos preconceitos e mitos que se opõem aos de igualdade efraternidade tão apregoados como alavancas eleitorais. Assim, torna-se fáciljustificar que os governos devem estar nas mãos das elites que distribuirão aseu critério os recursos de sobrevivência e de formação cultural para apopulação trabalhadora, perpetuando o seu poder absoluto.

Os mesmos raciocínios de competência das elites para exercer o poder, sãoaplicados às nações: as menos desenvolvidas e mais pobres submetem-se às maisricas e poderosas, como uma ordem natural das coisas que fica por conta dosdeuses ou de outras formas de explicação mitológica. Aceitam-se os impérios resultantes da vocação expansionistaque sugam as economias mais pobres e destroem todo o tipo de resistênciapopular, e ainda a publicidade do invasor como exercendo suposta missãopacificadora e democratizante. De lado fica o que a história revela sobre osantecedentes predatórios e exploradores dos países que enriqueceram a custa dedominação de regiões por eles colonizadas, escravizadas e roubadas.

Quando hoje são referidosos "impérios", nos textos históricos, são destacados os da antiguidade e depoisos que desapareceram no decorrer do século XIX até as duas grandes guerras. Odomínio do império britânico, assim como dos sistemas coloniais europeus e norte-americanoficam explicados pela revolução industrial que os dotou de um patrimôniotecnológico, bélico e financeiro que traduziu o poder aparentemente invencívelquando em confronto com as nações ainda subdesenvolvidas.

As duas grandes guerras esgotaram as forças das nações imperiais européias efortaleceram as dos Estados Unidos que desde a sua independência defendia umadoutrina isolacionista para fortalecer o desenvolvimento nacional. Na América(que incluía dentro do seu isolacionismo com o conceito de "América para osamericanos") apoiava a libertação colonial de várias nações e, aparentemente,colaborava com o desenvolvimento econômico local enquanto introduzia as suasempresas em substituição às européias. Assenhoreava-se dos setores fundamentaisligados a infraestrutura de transporte, comunicação e energia. Era o nascimentode um modelo imperialista mais ligado ao poder econômico que o das naçõeseuropéias que definiam uma administração política dentro do país ocupado.

Com a participação decisiva no final da segunda guerra (ao mesmo tempo em quefabricava as primeiras armas atômicas, e as utilizava contra populações civisno Japão), os Estados Unidos passaram da aliança aos europeus no combate aonazi-fascismo à liderança militar e econômica fortalecidas pela industria bélicae exploração de matérias primas. Foi um rude golpe na manutenção das antigascolônias européias, que já se inspiravam na revolução socialista paraconquistarem a independência nacional. Essa liderança indiscutível, centrada nodesenvolvimento do sistema capitalista ocidental, promoveu a diferençadoutrinária da política norte-americana que assumiu claramente o expansionismoimperial. No fim da guerra mundial foram criados os organismos internacionaisincumbidos da proteção e segurança mundial, com uma fachada democráticaenriquecida pela Declaração dos Direitos Humanos e princípios de liberdade,fraternidade e solidariedade na promoção do desenvolvimento das nações.

Os Estados Unidos tinham como oponente principal a União Soviética que apoiavaos movimentos de libertação nacional em todo o Terceiro Mundo e ofereciaformação cultural e científica para que os quadros políticos de paísessubdesenvolvidos tivessem condições de se prepararem para conduzir as lutasnacionais dos seus respectivos povos e assumir a administração governamentalapós a vitória. Crescia a luta anti-imperialista em todo o planeta enquanto aUnião Soviética desenvolvia um sistema socialista de participação popular e comatendimento às necessidades básicas da população – habitação, saúde, ensino,segurança social – sem deixar de investir fortemente na preparação militar parafazer frente a prováveis ataques do bloco capitalista. A definição da "guerrafria" serviu como pólo aglutinador da aliança ocidental promovendo a potêncianorteamericana a líder mundial do sistema capitalista. Estavam criadas, nosEstados Unidos, as condições para a vigência da doutrina Truman que encerrou oideal democrático cultivado nos antigos princípios da nação, e abriu vastoscaminhos expansionistas para a consolidação do império norteamericano queatingiu o seu ápice com a implosão da União Soviética. A presença invasora dosEstados Unidos em todos os continentes nos últimos quarenta anos fez com que anação ficasse identificada pelas novas gerações como imperialista e opressora. Énecessário reler a história mundial para separar o caminho nacional dos EstadosUnidos daquele que, pelo desenvolvimento da ganância capitalista e dosobjetivos expansionistas de um Estado/Grande-Empresa, constituem o imperialismoque ameaça a liberdade dos povos em luta pela criação de um mundo maishumanizado em que a Paz favoreça o fim da violência.

Dentro dos Estados Unidos muitas vozes têm manifestado a sua oposição a esteinfame "destino" de que a nação foi investida. Nas grandes manifestações contraa guerra no Vietnam ficou provada a exigência popular contra a manipulação dapolítica internacional por um aparelho monstruoso criado para dominar o mundo.Com a eleição de Barak Obama, multiplicaram-se as edições de livros e, agora defilmes documentários, de intelectuais que investem os seus conhecimentos e assuas vidas em um projeto de mudança radical da doutrina norte-americana nosentido da solidariedade entre todos os povos para enfrentarem, juntos, osproblemas do clima e do esgotamento dos recursos naturais que resultaram dassucessivas construções de impérios destruidores da Terra e da humanidade.

Já é voz comum que "aviolência gera violência" e os povos conscientes dos povos das suas capacidades e do caminho para desenvolvê-las, querem a Paz.

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*Formada em Ciências Sociais pela USP, tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde. É membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

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