Paquistão: Território estratégico das guerras do imperialismo

"A morte de Baitullah Meshd, líder dos talibãs paquistaneses, será um grande acontecimento para Washington e Islamabad". Este comunicado que, uma vez mais, anuncia a morte de um ser humano causada pela guerra, é lógico que alegre os estrategistas dos países ocidentais que ocupam ilegalmente um país soberano da Ásia Central desde 2001. Esta notícia faz com que os que fazem esta guerra de conquista manifestem, por breves instantes, a sua alegria e demonstrem a eficácia das suas mortíferas intervenções no terreno. Mas convém acrescentar uma outra interpretação a este acontecimento.

O desaparecimento do líder dos talibãs paquistaneses viria a somar-se aos elementos que justificam a extensão da guerra de ocupação que arrasa o Afeganistão e o vizinho Paquistão. E contribuiria para legitimar, definitivamente, perante a opinião pública mundial, os atos de guerra perpetrados por Washington e o exército nacional do Paquistão sobre o território paquistanês, ainda que convencer da utilidade da guerra contra os talibãs se tenha convertido numa tarefa muito fácil para Washington, depois de passar tantos anos a fabricar o "inimigo", atualmente encarnado pelos talibãs, aos olhos da população mundial.

Neste contexto é importante estar consciente de que o motivo real dessas guerras não é a erradicação dos talibãs, mas antes a criação das infra-estruturas e instalações necessárias para uma ocupação permanente da região por parte de Washington e das restantes potências ocidentais. Essas guerras só terminarão quando o regime de Cabul for capaz de assegurar o controlo militar total do território afegão, e isso só será possível com a ajuda do exército nacional paquistanês, necessário para controlar as zonas tribais fronteiriças com o Afeganistão, como Waziristão, a província da fronteira noroeste, incluindo o distrito de Swat.

As acções bélicas paquistanesas surgem como parte da "guerra contra o terrorismo" decretado pela administração de George W. Bush e ligadas à guerra do Afeganistão. O vale de Swat caiu sob domínio dos talibãs em dezembro de 2008 e depois foi objeto de operações militares com o objetivo de os desalojar ou pura e simplesmente "fazê-los desaparecer".

Esta guerra dirigida pelo exército nacional paquistanês com a ajuda do exército estadunidense não foi oficialmente declarada. Desenvolve-se no quadro da denominada "guerra preventiva" contra o terrorismo e permite às potências ocidentais aumentar o seu controlo em todas as regiões do Paquistão, o que não conseguiram fazer durante a presidência de Pervez Musharraf, entre junho de 2001 e agosto de 2008.

Balanço da guerra em 2009

Alguns relatórios recentes deram conta dos repetidos ataques na região contra os talibãs e os insurrectos procedentes do Paquistão, o que provocou um êxodo massivo das populações para o interior do país. A utilização de "drones" (N. do T.:aviões não tripulados) pelos Estados Unidos para eliminar os presumíveis locais de refúgio dos terroristas já causou um número de vítimas considerável.

Segundo dados recentes, esses ataques e outras intervenções teriam causado mais de 1.500 mortos entre os talibãs. No conjunto das regiões afetadas pela guerra observou-se a deslocação de mais de dois milhões de pessoas. "Até agora, os custos são muito elevados; dois mil mortos e mais de dois milhões de pessoas deslocadas por causa dos combates no vale de Swat e noutros lugares". Segundo o Pakistan Body Count do mês de agosto de 2009, as bombas e os ataques dos drones causaram quase 10.000 vítimas e entre estas contar-se-iam mais de 3.300 mortos. E acrescenta a observação de que "quer se trate de um atentado à bomba ou do ataque de um drone o resultado é o mesmo: um paquistanês morto".

Este sitio proporciona a história completa e a cronologia dos atentados à bomba e dos ataques dos drones. Os dados são recolhidos dos relatórios dos media, hospitais e outros sítios da Internet. Todos os dados estão disponíveis ao grande público e nenhum deles é confidencial. Isto permite ter uma ideia da intensidade dos atentados com bombas e os ataques perpetrados pelos drones.

Segundo Bill Van Auken, é importante que recordemos no passado mês de Maio "O governo de Obama está a considerar, cada vez mais, o aumento da sua intervenção no Paquistão como uma guerra específica contra a insurreição, e para a qual teria de pedir o mesmo tipo de poderes militares que já obteve Bush para o Afeganistão e o Iraque". Esses poderes poderiam permitir ao Pentágono, entre outras coisas, dar uma ajuda militar ao Paquistão na ordem de 400 milhões de dólares.

Referências:


*Jules Durfour, é doutor em Filosofía e professor emérito da Universidade de Québec em Chicoutimi.
Este texto foi publicado em: http://www.guardian.co.uk/world/2008/sep/03/pakistan.afghanistan1
Tradução de José Paulo Gascão para o site ODiario.Info

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