Várias faces do domínio econômico. Por Zillah Branco

Primeiro foram as “descobertas” de terras e povos selvagens (ou de velhas civilizações) para estabelecer um comércio desigual, de supérfluos por riquezas. Justificavam a desproporção do valor arrecadado para cobrir os riscos e os custos das viagens através de oceanos ameaçadores. Foram se deixando ficar para melhor usufruírem as delícias de um mundo novo, com mais calor (sobretudo humano), com mais espaço para criar novos poderes pessoais e nacionais.

As vantagens reais foram disfarçadas pela “educação civilizada” que abria os caminhos do Céu e do progresso humano. Estabeleceram-se, colonizaram extirpando a cultura e os idiomas locais. Transformaram as novas terras em extensões das velhas nações que se libertavam de problemas sociais e econômicos. “Salvar as almas selvagens” custava caro e as riquezas retiradas das colônias e o apagamento dos seus valores humanos parecia remunerar o sacrifício de ali permaneceram administrando e educando em condições de desconforto por falta de “civilização”.

A formula imperialista de dominação impôs-se como moderna e “quase democrática” apoiando lutas nacionais, intrigando etnias rivais, e sustentando governos nativos que se tornavam aliados e parceiros dos “civilizados”, livres para comercializar riquezas por supérfluos que modernizavam a vida selvagem com suas manifestações culturais tratadas como “folclore”, de alto valor turístico.

Os “selvagens” e escravos do século XVI, no processo de modernização industrial tornaram-se “proletários” e adquiriram a consciência da exploração que lhes era imposta pelas elites patronais e catequizadoras. Chegou-se a uma grande crise do sistema que minou os modelos de dominação colonialista.

O imperialismo apoiou guerras de independência infiltrando-se nos novos países onde fomentou governos ditatoriais da sua confiança. Introduzindo um modelo moderno de exploração que mantinha o subdesenvolvimento das antigas colônias que facilitava a dominação externa. Provocou guerras “pacificadoras e civilizadoras”, sendo vencido no Vietnam, Laos, Cuba, China, que contaram com a existência de países socialistas no leste europeu e movimentos comunistas em todo o mundo.

Os dois modelos competiam: o velho colonialismo europeu e o moderno imperialismo aliados no combate ao socialismo na “guerra fria” e na diluição do proletariado que perdia a sua consciência de classe revolucionária misturando-se com a classe média. Sem a expansão colonialista a Comunidade Europeia abriu um novo caminho de fortalecimento do poder ocidental com o sugestivo e anódino título de União – para igualar as condições dos seus parceiros pobres e ricos.

Criaram a moeda única, o euro, que passou a concorrer com o dollar que entrou em queda. Financiaram o desenvolvimento da produção com moderna tecnologia nos países mais pobres da Europa e abriram estradas modernizando a infra-estrutura do continente – caminhos para abastecer os mercados periféricos com os produtos industriais e absorver os produtos naturais selecionados de acordo com os interesses dos consumidores ricos.

Utilizaram nos países europeus mais pobres o mesmo modelo com que abriam estradas nos países africanos para abastecer de energia ou minérios os grandes consumidores externos. A “União” viu-se diante de uma crise “unitária” com as dívidas insuportáveis que a Grécia declarou no início de 2010 e as que crescem na Espanha, em Portugal, e na Bélgica e vão proliferar nos novos parceiros saídos do bloco socialista que desmoronou com a guerra fria.

Quando a crise anterior, iniciada em 2008 para estourar no início de 2009 ameaçou o sistema financeiro mundial, os países ricos recusaram a ideia do primeiro-ministro Britânico – Gordon Brown – que propôs a intervenção dos bancos pelos Estados (o que o levou a perder as eleições em Maio), os governos decidiram pagar as dividas bancárias, no espírito comunitário, sem destruir o poder financeiro do sistema global.

Por que não salvar os países pobres endividados da União (como a Grécia, para começar) da mesma maneira solidária que usaram para salvar os Bancos privados? Por que ao distribuírem a renda dos mais ricos com os mais pobres enfraquecem a moeda da União Europeia e o dólar sai fortalecido. É um beco sem saída para a União que precisa manter a hierarquia econômica interna que garante níveis de vida superiores para os mais ricos.

A História vai apresentando novas faces dos modelos de exploração que dinamizam o sistema capitalista, decepcionando os mais pobres que estavam nos vagões finais do comboio comunitário. Assim acontece também com o proletariado por mais que tenha sido promovido aos escalões finais da classe média consumista do mercado livre. Os que carregam a lanterninha vão pagando todas as crises do sistema.

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