Niko Schvarz: A única verdadeira vitória é conquistar a paz

O discurso de Fidel Castro na sexta-feira passada (3 desetembro) na escadaria da Universidade na qual ingressou há 65 anos merece serdifundia por toda a parte como uma contribuição efetiva à paz mundial, paracriar consciência universal sobre a necessidade de mobilizar-se para alertarsobre o gravíssimo perigo de uma guerra nuclear.

Por Niko Schvarz*

 

Há pouco o mundo recordou também os 65 anos do holocausto deHiroshima e Nagasaki (o maior e mais desnecessário crime de guerra da história)e agora a situação se reproduz, agravada. E mais ainda: entramos na contagemregressiva. Com efeito: a data para começar a aplicar as sanções decretadaspela maioria do Conselho de Segurança contra o Irã (com o rechaço do Brasil eda Turquia e a abstenção do Líbano) seria o dia 9 de setembro, ou inclusive odia 7 segundo outra versão; e a tentativa de inspecionar os navios que cheguemao Irã, o que este país rejeita,poderia ser a chispa de um incêndio nuclear deimprevisível extensão.

O líder cubano, cuja voz adquiriu ressonância universalnestes meses por sua prédica persistente a favor da paz, recordou suas origensna Universidade, valorizou a obra da revolução cubana (na qual se entrelaçou aluta pela libertação nacional com o esforço tenaz dos trabalhadores por sua libertaçãosocial) e se concentrou de cheio no objetivo de preservar a paz mundial. Emsuas palavras: “A pretensão de domínio econômico e militar dos primeiros emutilizar esses aterradores instrumentos de destruição e morte (em Hiroshima eNagasaki conduziram a humanidade à possibilidade real de perecer que hoje elaenfrenta. O problema dos povos hoje em dia é impedir que tal tragédia ocorra”.

 

Como prova da crescente consciência que se vai gerando emtorno desse tema crucial, citou uma das centenas de mensagens por elerecebidas, na qual uma análise justa da atual situação crítica se condensa nafrase que adotei para o título deste artigo: “A única verdadeira vitória éconquistar a paz”. Que se complementa com esta outra, que modificando umadifundida e contraditória divisa, expressa: “Se queres a paz, prepara-te paramudar tua consciência”.

 

Como vem fazendo ao longo destes três meses, Fidel Castroanalisa de forma minuciosa todas as informações e novos elementos de juízo queconfirmam sua tese do aumentado perigo de guerra nuclear. Entre eles, um artigopublicado nos últimos dias por George Friedman, diretor executivo doprestigioso centro Stradford, que conta com antigos analistas da CIA entre seuscolaboradores, assinala: “Uma nova onda de vazamentos sobre um ataque contra osobjetivos nucleares do Irã que Israel está preparando junto com os EstadosUnidos desta vez parece ter um fundamento real". (Recordamos por nossaparte – Veja-se a nota de 9 de agosto sob o título “Ex-oficiais da CIA advertemque Israel planeja bombardear o Irã” – que ex-oficiais dos serviços secretosagrupados no “Veteran Profesionals for Sanity” (VPS) notificaram Obama atravésde memorando que o governo de Netanyahu projetava um ataque surpresa ao Irã emdata próxima, com a ideia de obrigar os EUA a proporcionar um apoio total deseu exército à campanha militar).

 

Voltando à análise de Friedman, este adverte que outra graveconsequênc ia de um ataque contra o Irã seria que este país bloquearia oEstreito de Ormuz, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, o que levaria aocolapso 45% do fornecimento mundial de petróleo, fazendo com que disparasse seupreço e dificultando a recuperação da economia mundial depois da recessão.

 

Cita-se também uma opinião de Tony Blair, formulada naterça-feira da semana passada, 1º de setembro, em entrevista à BBC por ocasiãoda apresentação do seu livro de Memórias, no sentido de que a comunidadeinternacional poderia não ter outra alternativa do que a opção militar se o Irãdesenvolver armas nucleares (do que o estão acusando falsamente, mas seria opretexto para a agressão).

Em tal caso, deve considerar-se que há no mundo cerca de 25mil armas nucleares, sem contar as armas convencionais em enorme proporção. UMataque desse tipo já se produziu em 1981 contra um centro de pesquisa nucleariraquiano e o mesmo se fez em 2007 contra um centro de pesquisas sírio, aindaque este último, por misteriosas razões nunca foi publicitado. A conclusão deFidel é a seguinte: “Não abrigo a menor dúvida de que a capacidade de respostaconvencional do Irã provocaria uma guerra feroz, cujo controle escaparia dasmãos das partes beligerantes e a mesma se tornaria irremediavelmente umconflito nuclear global”.

 

Consigna-se também uma recente opinião do ministro deRelações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, que (apesar de que seu país votou as sanções contra o Irã no Conselho deSegurança) afirmou que as mesmas não levarão a nenhum lugar e que o problemairaniano não deve ser resolvido por nenhum método de força.

 

A opinião da Rússia não pode ser ignorada, estima Fidel.Também entra em cena a China, já que de acordo com um recente despachonoticioso examinado, a União Europeia, através de sua responsável de políticaexterna, Catherine Ashton, está pressionando a China para que suas empresas nãoocupem o lugar deixado por outras companhias que abandonaram o Irã devido àssanções.

 

O que se deve reter particularmente é o chamamento final deFidel Castro a intensificar a ação pela paz na medida em que nos aproximamos dadata que pode se tornar fatídica. Faltam muito poucos dias. Seu chamamento sedirige aos estudantes universitários, mas na realidade vale para qualquerpessoa honesta, como ele as chama, em qualquer lugar do mundo: “Exorto-os a nãodeixar de batalhar nessa direção de luta pela paz. Nesta, como em muitas lutasdo passado, é possível vencer”.

 

*Jornalista e escritor uruguaio, membro da direção da FrenteAmpla e do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo

 

Publicado no jornal LaRepública em 5 de setembro de 2010.

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