Fórum Social Temático termina com promessa de lutas populares

Termina neste domingo (29), em Porto Alegre, o Fórum Social Temático. Em meio a pressões de setores imperialistas sobre a “economia verde”, alguma dispersão e diversidade de reivindicações, foi um passo para sistematizar as bandeiras dos movimentos sociais no sentido democrático-popular e anti-imperialista.

 De olho na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que ocorre em junho, no Rio de Janeiro, o Fórum Social Temático produziu uma agenda de propostas alternativas à negociação formal que será conduzida pelos governos na conferência.

Com o tema “Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental”, o FST foi a primeira etapa da Cúpula dos Povos, reunião que deverá acontecer paralelamente à Rio+20, em um espaço de manifestação da sociedade civil organizada.

A principal crítica levantada durante os debates do FST foi, justamente, em relação ao conceito de economia verde, tema central da conferência. As organizações argumentam que o modelo vai apenas repetir a lógica do capitalismo, com a “mercantilização da natureza” e a manutenção das desigualdades. O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, chegou a dizer que a Rio+20 será apenas “um teatro governamental”.

Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz (CMP) e do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), declarou ao Vermelho que os movimentos populares não devem restringir a sua agenda a apenas opinar sobre a agenda dos governos e das Nações Unidas. “Devem ser pró-ativos, denunciar as mazelas do capitalismo, combater as políticas do imperialismo, postular as bandeiras de luta mobilizadoras, elaborar em unidade uma plataforma de luta que tenha como centro a defesa dos direitos dos povos, a soberania nacional, a solidariedade com os povos e nações agredidos e a luta pela paz mundial, contra as guerras imperialistas.”

A dirigente considera que a bandeira ambientalista é importante, mas, tomada isoladamente, é reducionista. “Os povos têm direito a lutar pelo desenvolvimento e isto significa construir modelos próprios, consentâneos com suas realidades nacionais. Nas mãos do imperialismo a bandeira da defesa do meio ambiente é esfarrapada, pois o maior destruidor do meio ambiente é o próprio imperialismo, capitaneado pelos Estados Unidos.”

Socorro Gomes também demonstrou preocupação com a dispersão, a fragmentação e o poder de convocação e mobilização do Fórum. “Precisamos retomar a discussão sobre a melhor maneira de organizar tais eventos, em nome da eficácia e da acumulação de forças na luta anti-imperialista.”

A Rio+20 foi lembrada no discurso da presidente Dilma Rousseff, que esteve no FST na quinta-feira (26) para um diálogo com representantes da sociedade civil. Dilma defendeu a criação de metas de desenvolvimento sustentável na conferência e articulação direta entre medidas ambientais e de combate à pobreza.

Apesar de bem-recebida pelos movimentos sociais na primeira participação dela em um evento do Fórum Social Mundial como chefe de Estado, Dilma não escapou das críticas. Ativistas cobraram propostas alternativas à economia verde e de mais diálogo da presidente com os movimentos sociais.

As questões ambientais e a Rio+20 dividiram espaço com debates de temas tradicionais do Fórum Social Mundial, como a crítica ao neoliberalismo, o fortalecimento da educação, a luta contra o monopólio dos meios de comunicação pelos imperialistas e as classes dominantes e a luta contra as políticas militaristas e intervencionistas das grandes potências internacionais.

O direito à memória foi tema de um dos eventos mais concorridos da semana, em que o sociólogo e jornalista Ignacio Ramonet defendeu a instalação de comissões da verdade e o direito coletivo de acesso a memórias de ditaduras para que as violações de direitos humanos nesse períodos não sejam esquecidas nem repetidas.

No Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, o tema também virou assunto no FST, com um evento que lembrou os oito anos do assassinato de três fiscais do trabalho, no episódio conhecido como Chacina de Unaí. Procuradores cobraram respostas do Poder Judiciário, que ainda não levou a julgamento os nove indiciados pelos crimes, entre eles, o prefeito da cidade mineira de Unaí, Antério Mânica, e o irmão dele, Norberto Mânica, acusados de serem os mandantes.

A ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, disse que a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição nº 438/2001, conhecida como PEC do Trabalho Escravo, será a prioridade legislativa da secretaria este ano.

Além do FST, em Porto Alegre, mais 25 eventos devem compor a agenda do Fórum Social Mundial em 2012, entre eles o Fórum Social Palestina Livre, marcado para o fim de novembro, também na capital gaúcha.

Socorro Gomes avalia que o fórum dedicado à libertação da Palestina é um dos mais importantes resultados do Fórum Social Temático de 2012. “Contribuir para os palestinos saírem do seu martírio de mais de seis décadas e se libertarem do jugo sionista-imperialista é um dever de todos os movimentos anti-imperialistas do Brasil e do mundo. O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e luta pela Paz (Cebrapaz) e o Conselho Mundial da Paz (CMP) estão plenamente dedicados a essa causa.”

Cerca de 1,5 mil pessoas participaram neste sábado (28) de uma assembleia que reuniu mais de 100 movimentos sociais presentes no Fórum Social Temático (FST) 2012. Em carta, os ativistas citaram a construção de uma agenda e de ações comuns contra o capitalismo, o patriarcado, o racismo e todo tipo de discriminação e exploração.

A dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), Rosane Bertotti, explicou que o documento lista elementos em comum em meio à diversidade registrada na assembleia. Entre os destaques, temas como a democratização da comunicação, a violência contra as mulheres, o desenvolvimento sustentável e solidário, a reforma agrária, a agricultura familiar, o trabalho decente, a luta pela educação e pela saúde.

“Rejeitamos toda e qualquer forma de exploração e discriminação, seja ela no mundo do trabalho, sexista ou racial. Rejeitamos também toda forma de criminalização dos movimentos sociais e a forma como o capitalismo se reinventa na proposta de uma economia verde, achando que apenas pintar de verde um espaço vai mudar a realidade. Entendemos que, para mudar a realidade, não é só pintar de verde, é garantir direitos, liberdade de organização, democracia, proteção social”, disse.

Para o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu, o FST constituiu um espaço importante para reunir ativistas de várias partes do mundo que, em 2011, deram lições de cidadania e consciência na luta pelo acesso à educação e pelo direito a uma educação de qualidade.

“O FST funciona como uma orquestra que consegue juntar diferentes opiniões de inúmeros países numa perspectiva de superar as desigualdades sociais e os desequilíbrios que hoje a gente enfrenta no mundo”, ressaltou. Entre as reivindicações do movimento estudantil brasileiro estão a destinação de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação, a vinculação de, pelo menos, 50% da arrecadação com a exploração do pré-sal para investimentos em educação e a valorização do professor.

O secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Quintino Severo, avaliou que os debates do FST ficaram dentro do esperado. “Nós, do movimento sindical, viemos para o fórum para fazer o debate junto com as outras mobilizações dos movimentos sociais, para potencializar a nossa intervenção, as nossas propostas durante a realização da Rio+20.”

A ideia, segundo ele, é fazer com que a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) não seja apenas um espaço de debate para ambientalistas, mas que inclua nas discussões fórmulas para melhorar as condições de trabalho no mundo. “Não basta apenas produzir de forma sustentável, é preciso desconcentrar renda, respeito aos direitos dos trabalhadores, aos direitos sociais e, acima de tudo, ao cidadão.”

Já o presidente da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Edson França, disse que a expectativa do movimento negro em relação ao FST foi superada, já que foi possível elaborar um documento com as reivindicações de todos os movimentos sociais.

“A questão racial aparece na carta porque o racismo é uma dimensão importante da opressão. Os movimentos sociais, a cada tempo que vai se passando, por meio do diálogo, vêm tomando entendimento e se sensibilizando a respeito disso”, explicou.

Socorro Gomes também entende que um dos méritos do Fórum Social Temático foi a sistematização das reivindicações dos movimentos sociais. “Todas elas têm relação direta com a luta pela paz mundial, contra as guerras imperialistas e as políticas espoliadoras dos governos conservadores e neoliberais em todo o mundo”, disse a líder do movimento pela paz.

Da redação do Vermelho, com informações da Agência Brasil

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