Condenação de militares reacende escândalo dos falsos positivos

“Eu sei que a minha luta acaba de começar. Não brigo apenas pelo caso do meu filho, Fair Leonardo Porras, nem somente pelos jovens de Soacha que foram assassinados. Eu luto por todas aquelas famílias que passaram pelo mesmo que eu em toda a Colômbia”.

Essas foram as palavras de Luz Marina Bernal ao comentar a condenação dos seis militares colombianos responsáveis pela morte de seu filho. A sentença foi mais um capítulo do caso de maior repercussão do escândalo dos “Falsos Positivos”, nome dado a uma série de assassinatos cometidos por militares na Colômbia. Segundo a estimativa das associações de vítimas, o total pode chegar a 3,5 mil pessoas.

A causa para as matenças é assustadora. Durante os anos da Presidência de Álvaro Uribe, o exército sofria pressão para apresentar resultados positivos na guerra contra as guerrilhas. Neste caso específico, os resultados positivos podem ser entendidos como inimigos mortos em combate.
A forma encontrada para lidar com essa pressão foi a criação de uma série de estruturas criminais que recrutavam jovens marginalizados, oferecendo-lhes trabalho em outras regiões do país. Uma vez convencidos a viajar, os jovens eram entregues ao exército, que simulava um combate, assassinava-os e apresentava seus corpos como inimigos abatidos em combate.

Para Luz Marina, seu filho podia ser considerado uma criança em um corpo de adulto. “Ele era um jovem de 26 anos e de educação especial. Por causa de uma doença ele tinha a mente de um menino de oito anos e não sabia tomar suas próprias decisões”, explica. Segundo ela, esse é o motivo pelo qual ele foi enganado tão facilmente. O rapaz foi levado sem resistência até a cidade de Ocaña, onde foi assassinado pelo exército.

A sentença, declarada em 11 de junho, é importante para todos os processos de Falsos Positivos que ainda não foram julgados no país. Os seis militares foram considerados culpados pela desaparição forçada e pelo homicídio do filho de Luz Marina, enquanto os oficiais receberam penas superiores a 50 anos e os subalternos a 30 anos.

Luz Marina afirma que seu papel como mão é garantir que “esses assassinos paguem pelo resto de suas vidas pelo dano que causaram” a uma família. “Eles mataram nossos filhos e nos deixaram mortas, ainda em vida, e o que vamos fazer enquanto vivermos será apoiar outras mães que sofreram o mesmo”.

O desaparecimento de Fair Leonardo e o desfecho trágico do jovem motivaram sua irmã a escrever um poema de protesto, que foi transformado em uma canção de hip hop popular em Soacha.

As Mães de Soacha

A colombiana é fundadora de uma organização conhecida como As Mães de Soacha, nome da cidade ao sul de Bogotá da qual provem o grupo mais famoso de jovens desaparecidos. Logo após o sumiço do grupo, eles foram encontrados em covas comunn, enterrados sem identificação.

Foi graças às denúncias deste grupo de mães, que são constantemente ameaçadas, que o país conheceu este crime hediondo. Elas contaram ao Opera Mundi que seguirão “lutando para poder alcançar os altos mandos militares e as cabeças que deram estas ordens de assassinar tanta gente inocente neste país”.

Os militares condenados no caso de Fair Leonardo foram absolvidos da acusação de conspiração, equivalente ao crime de formação de quadrilha. Ou seja, as condenações foram dadas por crimes isolados e não foi reconhecida uma atividade coordenada criminosa que organizava todo este fenômeno dos Falsos Positivos, registrados em todo o país.
Apenas no caso de Soacha são mais de 50 os militares investigados e o caso de Fair Leonardo é o primeiro que leva a uma condenação. Em toda a Colômbia, há mais de 1,5 mil militares respondendo a processos por casos de Falso Positivo, mas até o momento não ocorreram investigações contra as altas patentes militares.

Confissões militares

Vários militares já confessaram participações nestes crimes, como demonstra o depoimento dado pelo major reformado do exército Juan Carlos Rodríguez no começo de junho. O relato do militar, conhecido pelo apelido de “Zeus”, explica como os Falsos Positivos eram uma prática comum e que respondiam a uma cadeia de comando, consciente do que ocorria.

Segundo Rodríguez, “a prática mais comum era quando alguém reportava pelo rádio: ‘meu general, tenho duas baixas e três capturados’. E a resposta era: ‘agora mesmo vou enviar o helicóptero com os funcionários do CTI (Corpo Técnico de Investigação) para que façam o levantamento das cinco baixas’. Era claro que havia uma ordem que os três capturados deveriam ser assassinados”.

O militar reformado também culpa diretamente o então chefe do exército colombiano. “O general Mario Montoya era um dos que promulgavam isso. E ele sabe que eu conheço muitos pecados dele, mas eu preciso assegurar a minha segurança. Assim como ele, existem muitos. Primeiro, nos pediram garrafas de sangue e terminamos por encher caminhões tanque. Se você era um militar que não tinha mortos, estava fora do esquema. Os capturados não tinham valor”.

Fonte: Opera Mundi

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