Wevergton Brito Lima: Malvinas: um referendo patético

No dia 3 de janeiro de 1833, tropas britânicas invadem as Malvinas, expulsam seus habitantes autóctones e ocupam as Ilhas Malvinas, Geórgias do Sul, Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes. No dia 16 de janeiro (13 dias depois) a Argentina protesta junto à Grã-Bretanha e aos organismos internacionais. O Brasil, já independente, mas ainda monárquico, instrui o representante do país em Londres a apoiar os protestos argentinos.

Por Wevergton Brito Lima*

A Argentina jamais desistiu de reaver a soberania das ilhas ocupadas pelo colonizador inglês, que agora, 180 anos depois, lembrou-se de fazer um patético referendo, onde se pergunta aos colonizadores se a colonização tem que continuar. Isso é tão imoral quanto fazer um referendo com os integrantes de um sequestro se o sequestro deve continuar só levando em conta a opinião dos sequestradores e abstraindo o fato inelutável de que o sequestro é, em si, imoral.

Assim como no caso do sequestro, o mundo também já condenou há muito o colonialismo.

A ONU inclusive tem um comitê de “Descolonização” que desde a década de 1960 pede que a questão das Malvinas seja discutida.

Outro dado importante: desde 1965 a ONU, através do Comitê de Descolonização, estabeleceu que as partes da discussão sobre a soberania das Malvinas são a Grã-Bretanha e a Argentina.

Por que as Nações Unidas não colocaram os habitantes da ilha como parte da negociação? Quem responde é Benoni Belli, chefe da Divisão de América Meridional I do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. No caso das Malvinas, diz Benoni, “a disputa de soberania é anterior à própria presença de uma população na região. Não é, por exemplo, um processo de colonização como o que se viu na África. Na mesma época, 1840, a França tomou a Argélia e tinha toda uma população nativa, que foi colonizada e afrancesada. Depois, houve uma guerra sangrenta. Nesse caso, a população já presente precisa ser ouvida porque era dona daquele território (…). No caso das Malvinas não se aplica o chamado princípio da autodeterminação, porque está em jogo um território que era inabitado. Foi a partir da tomada do território que, ao longo dos anos, uma população foi se estabelecendo. (…) Então, o que prevalece no caso das Malvinas, que é um caso particular de colonização, é o princípio da integridade territorial dos estados.”**

Tão esdrúxulo referendo animou poucas vozes no cenário internacional a se manifestarem em apoio à farsa. Uma das vozes foi, é claro, a do governo estadunidense, que oficialmente diz ser neutro em relação a esta questão, mas que, na verdade, apóia o colonialismo inglês, tanto assim que na guerra das Malvinas ficou abertamente contra a Argentina.

No Brasil, o invertebrado jornal Folha de S. Paulo, em editorial intitulado “Malvinas Britânicas”, festeja: “o referendo é uma derrota constrangedora para o governo argentino”. O diário paulistano, que não é conhecido por sua altivez, chega ao ponto de afirmar que insistir na saída dos colonizadores seria “ir contra o princípio da autodeterminação dos povos”.

Só que o assunto está longe de se encerrar. Em 14 de junho de 2012 o Comitê de Descolonização da ONU, por unanimidade, pediu de novo que a Grã-Bretanha voltasse a tratar do assunto: “a maneira de pôr fim à especial e particular situação colonial na questão das Malvinas é a solução pacífica e negociada da controvérsia sobre soberania que existe entre os governos da Argentina e do Reino Unido”.

Além disso, a Argentina conta com o apoio de todos os países da América do Sul. Já fizeram formais declarações de solidariedade à Argentina o Mercosul, a Unasul (União das Nações Sul Americanas), a Celac (Comunidade dos Estados Latino Americanos e Caribenhos), a OEA (Organização dos Estados Americanos), todos pedindo uma solução pacífica e negociada para o problema.

A questão das Malvinas não é de interesse restrito da Argentina. A ocupação britânica tem alta relevância estratégica. Hoje, a maior parte dos habitantes das Ilhas é de integrantes das Forças Armadas Britânicas, que representam na verdade a Otan em pleno Atlântico Sul. A militarização das Malvinas, aliada às bases militares que os EUA têm no continente (só na Colômbia são sete) mais a reativação da Quarta Frota significam o cerco militar do imperialismo ao nosso continente. A ocupação das Malvinas tem, portanto, um papel fundamental nos planos agressivos do imperialismo para a nossa região e isso não deve ser menosprezado pelos patriotas latino-americanos e pelos amantes da paz espalhados pelo mundo.

Para finalizar, se a questão tivesse que ser resolvida com um referendo (e já vimos que não é o caso) deveriam também votar todos os descendentes dos habitantes das Malvinas expulsos em 1833 (eram poucos, mas existiam). Certamente este número estaria na casa das centenas de milhares, em qualquer caso bem mais do que os pouco mais de 1.500 gatos pingados que votaram no ridículo referendo, tão festejado pelos EUA, pela Folha de S. Paulo e por outros da mesma estirpe.

*Wevergton Brito Lima é jornalista e membro da Direção Nacional do Cebrapaz no Rio de Janeiro

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