“Longa Jornada” dos refugiados palestinos e o debate no Brasil

Um profícuo debate sobre a situação dos refugiados palestinos inaugurou no sábado (24) a exposição histórica da Agência das Nações Unidas de Assistência e Trabalhos para os Refugiados da Palestina (UNRWA), no Centro Cultural São Paulo (CCSP). A exposição, que ficará instalada até 15 de março, é composta por 40 fotografias e cinco curtas-metragens que gravaram momentos trágicos do contínuo massacre e da expulsão dos palestinos. O título, “Uma Longa Jornada”, corresponde à narrativa de uma história ainda em curso, de vidas atravessadas e memórias de despojo, do refúgio forçado em terras estranhas, mas também de resiliência e luta pelo retorno.

Por Moara Crivelente*

Milhares de palestinos abrigaram-se em escolas da UNRWA em Gaza
durante os bombardeios de Israel. Julho de 2014. Fonte: UNRWA 

É inevitável a insistência na responsabilidade da “comunidade internacional” frente à catástrofe (“nakba”, em árabe) permanente enfrentada pelo povo palestino, vitimado pelo movimento colonizador e racista de origem europeia, travestido de profecia religiosa: o sionismo. À medida que aumenta a consciência mundial sobre o regime de segregação e ocupação imposto por Israel e das barreiras aparentemente instransponíveis a serem superadas pela justiça, esta mesma opressão colonizadora intensifica-se.

Por isso, enfatiza-se a necessidade de envolvimento de outros atores internacionais não só na resposta às emergências humanitárias vividas sistemática e persistentemente pelos palestinos, principalmente nos campos de refugiados, mas também na busca por alternativas a um longo “processo de paz” evidentemente insustentável e, talvez, deliberadamente ineficaz. Enquanto as bombas caem sobre a Faixa de Gaza, em ciclos cada vez mais nefastos; enquanto tanques e soldados israelenses invadem vilas na Cisjordânia, ou bairros em Jerusalém Oriental, continua urgente o posicionamento internacional que exija o fim do regime que impõe aos palestinos a ocupação e o despojo cotidianamente.

O debate de sábado abordou o papel do Brasil na assistência humanitária aos palestinos, com uma audiência lotada para ouvir o coordenador-geral de Ações internacionais de Combate à Fome do Ministério brasileiro das Relações Exteriores, ministro Milton Rondó, o secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Rogério Sottili, o presidente do Instituto de Cultura Árabe (ICarabe) e professor de Direito Internacional da FGV, Salem Nasser, a assessora de Relações Exteriores da UNRWA, Paz Fernandez, e o diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (Unic Rio), Giancarlo Summa.

O ministro Rondó informou que o Itamaraty avalia, com a UNRWA, o envio de mais um lote de arroz, já que a quantidade enviada em meados do ano passado, equivalente a cerca de R$ 24 milhões, não cobrirá o período antes estimado, devido à ofensiva israelense de julho e agosto, que agravou consideravelmente a situação no território, sitiado desde 2007. Inverno naquele hemisfério, notícias sobre a emergência humanitária em Gaza incluem a morte de ao menos cinco pessoas devido à falta de abrigo contra o frio e a pendência da enésima reconstrução após uma agressão israelense – a terceira em cinco anos. Quase 20 mil pessoas continuam desabrigadas e até mesmo 118 instalações da ONU foram afetadas pelos ataques aéreos, matando civis que buscavam abrigos e funcionários do corpo humanitário, de acordo com o relato preliminar de uma investigação conduzida pela própria agência após a ofensiva de Israel.

A maior participação do Brasil na assistência aos palestinos trouxe recentemente ao país um assento no Conselho Consultivo da UNRWA, atrelado a um apoio continuado aos palestinos em geral. Durante a ofensiva israelense, o posicionamento brasileiro de condenação à violência e ao massacre dos civis de Gaza causou um debate doméstico que opunha os que apoiaram e demandaram ainda mais firmeza de ação, os que consideram a posição insuficiente e os que a criticaram enfaticamente, evidenciando seu alinhamento à política agressiva do sionismo.

Sobre a assistência brasileira, Rondó lembrou ainda de uma ponte construída pelo Brasil para a travessia de estudantes a caminho da escola, destruída por Israel durante uma ofensiva anterior. O caso contribui para evidenciar a necessidade de maior assistência aos palestinos e de envolvimento dos brasileiros na questão, tanto para pressionarmos neste sentido os parlamentares que elegemos quanto para acompanharmos projetos em que consideramos importante investir. Entre os crimes de guerra das forças israelenses contra os palestinos em sua eterna expulsão e massacre, a contínua destruição dos resultados da assistência humanitária internacional também precisa entrar na conta para, além do cínico ressarcimento pelos danos materiais – já efetuado por Israel no passado – garantir-se, finalmente, a responsabilização por tantas violações.

A UNRWA, que já realizou campanhas no Brasil para levantar recursos devido aos desafios que enfrenta – especialmente em Gaza e na Síria – presta assistência a refugiados palestinos desde 1948, com campos no Líbano (445,798 mil pessoas), na Jordânia (2,110 milhões de pessoas), na Síria (528,711 mil pessoas), na Cisjordânia (895 mil pessoas) e na Faixa de Gaza (1,263 milhão de pessoas, cerca de 80% da população). Para entender melhor o trabalho da UNRWA e a parceria com o Brasil, o site da agência em português pode ser acessado aqui.

unrwa atuao

*Moara Crivelente é cientista política, jornalista e membro Cebrapaz, assessorando a presidência do Conselho Mundial da Paz.

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