Marco histórico da revolução latino-americana

O 4 de fevereiro entrou para a história da América Latina como o dia em que começaram a mudar estruturas políticas, econômicas e sociais na Venezuela, com impacto em toda a região. Naquele dia, há 23 anos, o então tenente-coronel Hugo Chávez Frías, à frente de um pugilo de militares, e de um ainda espontâneo movimento popular, se alçou em rebelião armada, iniciando um processo depois batizado de Revolução Bolivariana.

Este grupo de oficiais, inspirado no ideário do libertador Simon Bolívar, tinha fundado em 1983, diante da já evidente decomposição do sistema político, o Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR 200). Formado pela juventude militar, oficiais superiores e subalternos, logo conhecidos como os “comacates” (sigla de coronéis, majores, capitães e tenentes), estudou a obra de Simon Bolívar, Simon Rodriguez e Ezequiel Zamora, de cujos pensamentos retomaram o conceito de soberania, pedagogia libertadora e defesa do povo.

Por José Reinaldo Carvalho*

 

Quartel Montana homenageia a data de 4 de fevereiro: Foto: José Manuel Correa

Quando ocorreu a rebelião de 4 de fevereiro, os círculos dominantes venezuelanos, o sistema político internacional, a mídia conservadora e setores políticos de variado espectro, incluindo a centro-esquerda e mesmo forças de esquerda, viram no líder da insurreição cívico-militar a nova versão do golpismo. Simplistas e dogmáticos no exercício do pensamento único reacionário, não perceberam que o episódio era o marco miliário de uma nova situação política na Venezuela e em toda a América Latina, o começo do fim do decadente sistema político denominado “Punto fijo”, baseado no bipartidarismo das classes dominantes, e a abertura de uma nova etapa política em um país cuja história fora marcada também por ditaduras, golpes e guerrilhas revolucionárias.

Hugo Chávez em 1992. Ao seu lado, Francisco Arias Cárdenas e Jesús Urdaneta.
Foto:Arquivo histórico

O “Punto fijo era um pacto de “governabilidade” firmado em 1958, entre os três maiores partidos venezuelanos. Uma de suas derradeiras expressões foi o governo do social-democrata Carlos Andrés Perez. Submisso aos organismos financeiros internacionais, Perez foi alvo da revolta popular, no movimento que se celebrizou como o “Caracazo”, em 27 de fevereiro de 1989, em que milhares de pessoas foram mortas pela violenta repressão policial.

O governo de Carlos Andrés Pérez enfrentava um alto nível de impopularidade, com uma série de greves e protestos. Era apoiado pelos Estados Unidos, na época sob a presidência de George Bush (pai), um dos idealizadores da Alca e da “nova ordem”, iniciada com a derrocada dos governos socialistas na antiga União Soviética e no Leste europeu. Simbolicamente, no dia da insurreição cívico-militar de 1992, Perez acabava de retornar do Fórum Econômico de Davos.

Tenente Ricardo Torres à frente de um dos tanques.
Foto: Arquivo histórico

A rebelião liderada por Chávez em 4 de fevereiro foi derrotada, mas a frase pronunciada pelo tenente-coronel ao assumir sua responsabilidade e reconhecer o fracasso – “Por ahora” (por enquanto) – soou como uma profecia ou uma advertência que equivalia a um “Voltaremos!”.

Efetivamente, depois de cumprir pena de dois anos de prisão, Chávez foi eleito presidente da República, em 1998, abrindo caminho para a restauração da independência nacional e a fundação de um novo Estado a que se deu nome de República Bolivariana, um sistema político inspirado nas ideias do libertador do país Simon Bolívar, mescladas com variantes do pensamento da esquerda contemporânea.

O que se passou desde então é uma história conhecida. Chávez se tornou numa das mais importantes figuras latino-americanas, um dos líderes do movimento anti-imperialista contemporâneo e da construção da nova “Nuestra América”, para usar a expressão consagrada de José Martí.

O jovem tenente-coronel Hugo Chávez em 4 de fevereiro de 1992.
Foto: EcuRed

A rebelião de 4 de fevereiro de 1992 está na origem também da nova Constituição do país que formata instituições da democracia participativa, da mobilização permanente do povo, em substituição aos mecanismos de representação política que se tornara um simulacro de democracia. Com todas as imperfeições que há e novos conflitos que suscita, o sistema político instituído pelo movimento chavista canaliza as demandas e anseios dos humildes, dos trabalhadores, em luta contra oligarquias financeiras internas e externas.

O chavismo inaugurou também nova etapa na luta pela integração e unidade dos povos e nações da região latino-americana e caribenha, cujas expressões maiores são a Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América (Alba) e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), organismos de cooperação política e econômica que criaram objetivamente um novo polo geopolítico em favor do desenvolvimento e a paz.

A quase um quarto de século de distância, a rebelião cívico-militar de 4 de fevereiro na Venezuela já pode ser avaliada com novo olhar.

*José Reinaldo Carvalho é jornalista, diretor do Cebrapaz e editor do Portal Vermelho

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