Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais reafirma denúncia à política imperialista da Otan

O presidente do Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais e ex-chanceler da antiga Iugoslávia, Zivadin Jovanovic, enfatiza a necessidade de a Sérvia manter-se neutral e longe da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em nota sobre os 15 anos do Fórum, lançado em março de 2000, em sua Assembleia Anual, em 24 de janeiro, Jovanovic reafirmou a luta pela igualdade soberana entre todos os Estados e povos como “fundação para uma cooperação equitativa, para a paz, a estabilidade e o desenvolvimento.”

O ex-chanceler fez menção à memória dos bombardeios da Otan contra a antiga Iugoslávia, em 1999, quando quatro mil pessoas foram massacradas e as sequelas do uso de armas como o urânio empobrecido permaneceram. Em março de 2000, um evento organizado em homenagem às vítimas estabeleceu o Fórum de Belgrado como uma associação não-alinhada, independente e sem fins lucrativos.

A defesa da paz promovida pelo Fórum passa pela “liberdade de escolha sobre o desenvolvimento interno de cada país, não interferência nos assuntos domésticos e a solução de todos os conflitos e questões internacionais através de meios pacíficos”, afirmou Jovanovic. “A igualdade e a soberania dos Estados e nações, como cunhado na Carta das Nações Unidas, ao mesmo tempo, é precondição essencial para a implementação dos direitos humanos universais em sua completude, abrangendo direitos políticos, econômicos, sociais, culturais, ao emprego, à educação, à segurança da saúde, à informação verdadeira, entre outros.”

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O Fórum é membro do Conselho Mundial da Paz, que também comemorou recentemente seu aniversário de 65 anos com a reafirmação dos princípios de luta anti-imperialista e de respeito entre as nações em todo o planeta.

Kosovo e a ingerência UE-Otan

Sobre a questão da província de Kosovo e Metohija e seu estatuto, Jovanovic afirmou na Assembleia Anual do Fórum que a solução só pode ser encontrada através da resolução 1244 (1999) do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da Constituição da Sérvia. Os ditames da Otan, dos EUA e da União Europeia “não são a forma de avançar com um compromisso durável”, sublinhou, lembrando que os interesses legítimos da Sérvia são ignorados nas “negociações de Bruxelas” impulsionadas pelo grupo.

“Aqueles países, que bombardearam a Sérvia em 1999 em aliança com o terrorista KLA [Exército de Liberação do Kosovo], hoje continuam avançando seus objetivos estratégicos apoiando antigos líderes terroristas de Kosovo e Metohija vestidos em roupagem civil.” Jovanovic criticou a “submissão” das autoridades sérvias de hoje à UE e à Otan, no contexto em que alguns vizinhos tornaram-se membros dessas organizações. Além disso, o ex-chanceler também mencionou as tendências de venda de empresas e recursos nacionais, como companhias de telefonia, de eletricidade, terras agricultáveis, água e minas. “Se os recursos nacionais mais importantes estão nas mãos de estrangeiros, como podemos alegar viver em um país livre e independente?”, ponderou, urgindo o governo a frear este movimento.

De acordo com informações do Fórum, os participantes na Assembleia endossaram a visão de que a Sérvia deveria “aderir permanentemente ao princípio da neutralidade” e que, “como um país pequeno e pacífico, não deve aceder à Otan, uma aliança militar agressiva.”

forum de belgrado

Foto: Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais

O presidente do Fórum de Belgrado também abordou a crise ucraniana que continua em escalada. Para ele, trata-se da consequência da estratégia de expansão da Otan em direção ao leste da Europa. Mais uma vez, Jovanovic defendeu a neutralidade da Sérvia para “resistir às pressões pela aplicação de sanções contra a Rússia,” já que “sanções não ajudam a paz, mas os promotores da guerra.”

Além disso, o ex-chanceler apontou para a hipócrita variação política dos EUA-UE-Otan que, agora, após fomentar o separatismo em Kosovo e Metohija, defendem o respeito à integridade territorial soberana, já que movimentos separatistas têm tomado força pela Europa. “Apenas poucos intelectuais lembraram publicamente do precedente de destruição da Iugoslávia, das agressões da Otan contra a Bósnia-Herzegovina (1995) e contra a Sérvia (1999), de fato, da estratégia da Otan de redesenhar fronteiras internacionalmente reconhecidas na Europa e além.”

Leia a nota e o discurso do presidente do Fórum, Zivadin Jovanovic, a seguir:

SÉRVIA DEVE PERMANECER NEUTRA, LONGE DA OTAN

 O Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais, uma associação não alinhada, independente e sem fins lucrativos, foi estabelecido há 15 anos, em março de 2000. O Fórum realizou uma importante conferência internacional em homenagem às quatro mil vítimas da agressão de 1999 da Otan contra a Antiga República da Iugoslávia (FRY, na sigla em inglês).

O Fórum acredita na e luta pela igualdade soberana entre todos os Estados e povos como as bases fundamentais da cooperação equitativa, da paz, da estabilidade e do desenvolvimento. A liberdade de escolha do desenvolvimento interno de cada país, a não interferência nos assuntos domésticos e a solução de todos os conflitos e problemas internacionais por meios pacíficos estão entre as convicções mais importantes do Fórum.

A igualdade e a soberania dos Estados e nações, como cunhadas na Carta das Nações Unidas são ao mesmo tempo precondições essenciais para a implementação dos direitos humanos universais em sua completude, abarcando direitos políticos, econômicos, sociais, culturais, ao emprego, à educação, à segurança da saúde, à informação verídica e outros. O Fórum defende o respeito pelos princípios básicos do direito internacional, especialmente em respeito à Carta das Nações Unidas e à Ata Final de Helsinque (1975).

O Fórum coopera com muitas associações de orientação similar na Sérvia, nas antigas Repúblicas iugoslavas, na Europa e no mundo inteiro. É membro do Conselho Mundial da Paz, baseado em Atenas, Grécia.

 

Desde sua fundação, o Fórum publicou mais de 150 livros, organizou muitas conferências nacionais e internacionais, mesas-redondas, coletivas de imprensa, performances e outros eventos públicos. Seus representantes participaram de várias conferências em todo o mundo. Durante o último ano, o Fórum publicou seis novos livros (sete mil cópias), três dos quais traduzidos para várias línguas estrangeiras, distribuídos por todo o mundo.

 

O livro Serbia in the Great War 1914-1918 (“Sérvia na Grande Guerra 1914-1918”), escrito pelos professores Mira R?dojevic e Ljubodrag Dimic, teve duas edições em sérvio e uma em russo, em inglês e em alemão. Preparações também acontecem pela publicação deste livro em eslovaco e chinês. É uma contribuição excepcional na defesa da verdade contra a revisão sistemática e politicamente motivada da história do século 20.

 

O livro New Cold War (“Nova Guerra Fria”), contendo as falas a Conferência Internacional realizada em 22 e 23 de março de 2014, por ocasião do 15º aniversário da agressão da Otan contra a FRY, acabou de sair e foi apresentado na Assembleia Anual do Fórum em Belgrado, em 24 de janeiro de 2015.

 

No ano passado, o Fórum sediou três grandes conferências internacionais e duas mesas-redondas assistidas por quase dois mil sérvios e cerca de 200 cientistas e especialistas de mais de 50 países.

 

Falando na recente Assembleia, Zivadin Jovanovic, presidente do Fórum, apresentou as posições sobre algumas questões nacionais e internacionais cruciais. Ele disse que uma solução estável e justa para o estatuto da província de Kosovo e Metohija só pode ser encontrada através da resolução 1244 (1999) do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da Constituição da Sérvia. Os ditames da Otan, dos EUA e da União Europeia manifestados nas chamadas “negociações de Bruxelas” não são a forma de avançar com um compromisso durável – ele disse. “Negociações” deste tipo não têm base legal; os interesses legítimos da Sérvia são ignorados. Esses países, que bombardearam a Sérvia em 1999, em aliança com os terroristas do KLA, hoje continuam tendo os mesmos objetivos estratégicos, apoiando antigos líderes terroristas de Kosovo e Metohija trajados de roupas civis.

 

Jovanovic criticou a “psicologia da submissão aos comissários da UE em Bruxelas e da Otan”. Ele considerou que as autoridades do governo também sofrem de “complexo de inferioridade com relação aos seus vizinhos, mesmo quando eles cospem, insultam, processam, difamam, quando expressam abertamente demandas territoriais e continuam violando direitos humanos básicos de sérvios.” Apenas porque alguns vizinhos tornaram-se membros da Otan e da UE!

 

Jovanovic urgiu o governo a “não vender companhias públicas como a ‘Telecom’, a Companhia Elétrica (EPS), ‘Danube insurance’, terras agricultáveis, água e minas. Se os recursos nacionais mais importantes estiverem em mãos estrangeiras, como poderemos alegar viver em um país livre e independente?” – questionou.

 

Os participantes na Assembleia endossaram firmemente a visão de que a “Sérvia deveria aderir permanentemente ao princípio da neutralidade” e que, “como um país pequeno e pacífico, não deve aceder à Otan, uma aliança militar agressiva.” Ele também reiterou que a atual guerra no leste da Ucrânia é consequência da estratégia da Otan para expansão em direção ao leste. Naquele conflito a Sérvia deve permanecer neutra, resistindo todas as pressões para aplicar sanções contra a Rússia. Sanções não ajudam a paz, apenas promotores da guerra. Aquelas não são sanções da ONU, mas dos EUA/Otan/UE, onde a Sérvia não se enquadra.

 

O precedente foi estabelecido em violação dos princípios da Carta das Nações Unidas (1945) e dos princípios da Ata Final de Helsinque da OSCE (1975). Tal prática encorajou movimentos separatistas em várias partes da Europa, dando ao mesmo tempo firme ímpeto ao crescente terrorismo e ao crime organizado. A posição dos EUA/Otan/UE de que “Kosovo é um caso único” provou-se propaganda insustentável. Tendências separatistas em vários países membros da UE cresceram e o terrorismo espalha-se por toda a parte.  

 

Nos dias de hoje os maiores representantes dos EUA/Otan/UE defendem publicamente o respeito à soberania e à integridade territorial, denunciando a “política de redesenhar as fronteiras internacionais” e afins! Apenas poucos intelectuais lembraram publicamente do precedente de destruição da Iugoslávia, das agressões da Otan contra a Bósnia-Herzegovina (1995) e contra a Sérvia (1999), de fato, da estratégia da Otan de redesenhar fronteiras internacionalmente reconhecidas na Europa e além.

 

Por quê? Pouca memória? Pouca visão? Estão impressionados? Não deveríamos, ao menos, pelo bem dos autos, dizer: foram vocês, líderes dos EUA, da Otan e da UE quem primeiro violaram princípios básicos de soberania e integridade territorial da Iugoslávia (República Federativa Socialista da Iugoslávia, depois FRY) e então da Sérvia; não foram vocês, ou alguns de vocês, os que impediram a implementação de uma solução política pacífica na Bósnia, com base no plano de 1992 de Jose Cutiliearo; não foram vocês, ou alguns de vocês, que ajudaram a trazer e a armar combatentes da Chechênia, do Oriente Médio e extremistas na Bósnia que mantiveram vilas, cidades e partes do território da Bósnia sob controle?! Não foram vocês os que violaram o princípio básico da OSCE de Helsinque sobre o consenso ao impor a fórmula, em 1992, “consenso menos um”, assim excluindo a Iugoslávia, fundadora da OSCE, favorecendo os separatistas; vocês não fizeram nada para deter o financiamento, o armamento e o treinamento dos KLA albanês terrorista em nossos países. Isso não era a preparação para a guerra e a separação?!

 

Na véspera da agressão da Otan, foram vocês os que removeram o KLA da sua lista de organizações terroristas, adicionando-o à lista de movimentos de liberação (1998). Não era isso um passo para garantir a aliança no ataque à Sérvia e Montenegro em 1999?! Diz muito sobre os seus princípios e padrões na luta contra o terrorismo. Agora vocês parecem preocupados com o motivo de tantos albaneses de Kosovo e Metohija estarem lutando ao lado do EIIL [“Estado Islâmico do Iraque e do Levante”] no Oriente Médio! Por que, nestes dias, milhares deles fugiram desesperadamente para os seus países? Foram vocês quem começaram a redesenhar as fronteiras internacionais da Europa ao violar não só os princípios básicos do direito internacional, como também violaram a decisão concreta do Conselho de Segurança da ONU contida na resolução 1244 (1999); foram vocês os que impediram a solução política pacífica em Kosovo e Metohija ao exigirem finalmente a ocupação militar completa do território da FRY, na [Conferência e no Acordo] Rambouillet, há exatos 15 anos; foram vocês os que violaram constituições de seus próprios países/organizações ao lançar a agressão contra a Sérvia (1999); não são responsáveis pela morte de cerca de quatro mil civis da Sérvia e Montenegro, pelo uso de mísseis com urânio empobrecido, continuamente aumentando o número de mortes das gerações presentes e futuras? Não são obrigados a compensarem pelos danos materiais de guerra de mais de US$ 100 bilhões?!

 

O primeiro passo após a agressão da Otan de 1999 foi a construção da base militar dos EUA “Bondsteel” em Kosovo e Metohija, uma das maiores do mundo. Como o futuro mostrou, “Bondsteel” foi apenas o primeiro aro de uma longa corrente de bases militares dos EUA na Bulgária, na Romênia, Polônia, Estados bálticos, etc. Cerca de 30 mil tropas de reação rápida da Otan, estoques de novos equipamentos militares e cinco novos “comandos rotativos” estão engajados no avanço da expansão da Otan em direção à Rússia. Uma nova cortina de ferro é instalada para dividir a Europa da Rússia, para excluir a Rússia da Europa.

 

É esta a visão da nova segurança e cooperação no ano que marca o 40º aniversário da Ata Final de Helsinque? 


Do Cebrapaz

Moara Crivelente

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