Richard Falk: Por que a experiência de Ahed Tamimi importa

É já sabido por praticamente todos os que acompanham a luta palestina que uma menina de 16 anos de idade, agora 17, chamada Ahed Tamimi, confrontou soldados israelenses nas terras da sua família pouco depois de seu primo, Mohammed, ter sido baleado no rosto com um projétil de borracha, causando um coma. O vídeo de suas ações se tornou viral, mostrando ao mundo uma corajosa jovem mulher engajando-se em atos não violentos de resistência e, um dia depois, sendo presa no meio da noite, em sua casa, para depois ser acusada de vários crimes.

Por Richard Falk*, em seu blogue 

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Como é da prática comum israelense na detenção de crianças, Ahed foi arrastada para uma instalação prisional israelense sem contato com a sua família e logo impedida de sair sob fiança.

Como amplamente notado, Ahed Tamimi é uma vítima heróica para aqueles na Palestina e em outras partes que apoiam a luta nacional palestina e saúdam tais atos simbólicos de resistência não violenta. Ahed também tem sido frequentemente chamada de “icônica” porque a sua história, agora e antes, é tão emblemática da extraordinária perseverança do povo palestino, que tem enfrentado cinquenta anos de ocupação e setenta anos desde o espólio massivo de 1948, conhecido pelos palestinos como a Nakba [catástrofe].

Este prolongado suplício continua a se desdobrar sem um fim decente à vista. O fato de Ahed ser uma criança e uma menina reforça a dupla imagem da coragem, da resistência obstinada e da vitimação. Também é notável que tão cedo quanto em 2013, Ahed ganhou proeminência ao receber o Prêmio Handala por Bravura de uma municipalidade turca, em Istambul, ocasião que recebeu grande atenção devido a um café-da-manhã em sua homenagem organizado pelo então primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan. Quando tinha apenas 13 anos de idade, Ahed abriu uma exibição de arte em Istambul apropriadamente intitulada “Ser uma Criança na Palestina”.

A reação israelense, como se pode esperar, foi tão negativa e baixa quanto a resposta palestina foi afirmativa, talvez ainda mais. Ninguém menos que a ministra da Cultura de Israel Mira Regev referiu-se a Ahed assim: “Ela não é uma menininha, é uma terrorista. Já é hora de eles entenderem que gente como ela deve estar na prisão e não ser permitida incitar o racismo e a subversão contra o Estado de Israel.”

O internacionalmente conhecido ministro da Educação, Naftali Bennett, foi mais preciso em descrever a punição que cabia ao suposto crime de Ahed: “Ahed Tamimi deveria cumprir uma sentença perpétua por seu crime.” Mais sinistro, Ben Caspit, um jornalista proeminente, fez uma afirmação bastante chocante sobre como o tipo de comportamento desafiante de Ahed mereceria, ofensivamente, ser respondido por fora do quadro legal: “No caso de meninas, deveríamos cobrar o preço em outra oportunidade, no escuro, sem testemunhas ou câmeras.” Alguns críticos leram esta declaração como a defesa de abuso sexual, até mesmo estupro, mas seja qual for sua intenção, o fato de que tal linguagem pode ser usada abertamente em escalões mais altos do discurso israelense, sem causar uma reação israelense, é sugestivo do estilo terrorístico de governo promovido para vergar a disposição da resistência palestina.

A reação de Miri Regev ao vídeo dos Tamimi situa a reação israelense a Ahed Tamimi em formas que parecem refletir o humor dominante no país, que perversamente inverte as realidades de opressor e oprimido, o vitimante e o vitimado: “Quando assisti aquilo, me senti humilhada. Eu senti-me esmagada,” achando incidente “danoso para a honra do exército e do Estado de Israel.” É essa a estranha sensação de que são os israelenses e não os palestinos os que experienciam humilhação na atual situação, embora Israel esteja no controle completo de cada aspecto da experiência de vida palestina, o que, para os palestinos, envolve um deparar-se diário com políticas opressivas elaboradas para assustar, humilhar e subjugar. Em contraste, os israelenses gozam dos benefícios de liberdade e prosperidade urbanas em uma atmosfera de normalidade com relativamente altos níveis de segurança nos anos recentes, que diminuíram enormemente a ameaça securitária e, no processo, efetivamente apagaram os ressentimentos e aspirações palestinas da consciência pública.

Quando os palestinos são notados, como nesse incidente, isso tende a ocorrer com escárnio e expressões de uma vontade política israelense dominante, que considera totalmente adequado impor punições a crianças palestinas com uma intensidade completamente desproporcional à gravidade do alegado crime. É esta disparidade entre a realidade da resistência palestina e a retórica das opções opressivas israelenses que dão à história de Ahed Tamimi tal comoção simbólica.

Claro, há respostas israelenses mais sofisticadas ao desafio de Ahed. Alguns comentadores alegam que o que é desproporcional é a atenção global dedicada ao incidente, até sugerindo que isso foi um estratagema cínico visando distrair a opinião pública mundial devido ao fracasso do Hamas em cumprir com seu apelo por uma terceira intifada em resposta à decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e, assim, trasladar a Embaixada estadunidense.

Outros críticos insistem que o incidente foi encenado pelos palestinos, com câmeras a postos, e não tão espontâneo como o vídeo quer que acreditemos. Tal disputa parece irrelevante, mesmo que correta, já que a postura desafiante de Ahed foi provocada pelo disparo e o ferimento de seu primo pouco tempo antes, o que certamente não foi encenado, mas sim o reflexo de respostas israelenses opressivas e violentas às manifestações de resistência palestinas.

Menosprezar as ações dela como instrumentos de “guerra informativa” também é ignorar a incerteza que ela enfrentou quando tão firmemente confrontava soldados israelenses e desafiava sua autoridade. Ela não podia saber que estes soldados não retaliariam violentamente, como de fato alguns israelenses desejaram que tivesse ocorrido, para evitar “humilhação” do lado israelense. A coragem e a reação digna de Ahed parecem autênticas devido ao contexto mais abrangente, assim como a resistência da família Tamimi na cidade de Nabi Saleh, que sem dúvida integrou Ahed na cultura da prática não violenta.

Acredito que essas respostas polarizadas ao incidente oferecem uma metáfora para a atual fase das relações Israel/Palestina. A metáfora recebe uma vivacidade especial porque Ahed Tamimi, como uma criança, resume a mentalidade e a tática de um estado opressivo. A possibilidade de o caso de Ahed ser julgado por uma corte militar que conclui que 99% dos réus são culpados dos crimes de que são acusados é reminiscente da condução da justiça penal sul-africana no auge do racismo do apartheid.

Além de o destino legal do caso de Ahed está a desumanidade inefável em se manter cativa uma população civil geração após geração. O ato e o destino de Ahed Tamimi devem importar enormemente para todos nós e inspirar crescente compromisso com a solidariedade com a luta nacional palestina.

*Richard Falk foi professor de Direito Internacional na Universidade de Princeton por 40 anos. Em 2001, foi nomeado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos para investigar a situação na Palestina ocupada, o que resultou em um importante relatório. Atualmente, dá aulas na Universidade da Califórnia em Estudos Globais e Internacionais e preside a Direção da Fundação pela Paz na Era Nuclear. 

Fonte: Global Justice in the 21st Century (blogue pessoal de Richard Falk)

Tradução: Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ)