Nenhuma agressão nos desviará do rumo soberano nem impedirá de preservar a vida, diz Maduro em carta aos povos

O presidente da Venezuela Nicolás Maduro enviou uma “carta aos povos do mundo” em 29 de março, denunciando a gravidade das políticas agressivas que atentam contra a paz e a estabilidade na Venezuela, intensificadas pelos Estados Unidos quando o povo venezuelano, assim como os demais povos do mundo, enfrenta a pandemia de COVID-19. Maduro também refuta as recentes acusações feitas pela Procuradoria-Geral estadunidense, que busca criminalizar as autoridades venezuelanas, e enfatiza a importância da solidariedade internacional. Leia o texto a seguir.

Marcha anti-imperialista em Caracas, no Encontro Internacional da Classe Trabalhadora em Solidariedade com o Povo Venezuelano. Setembro, 2019.

Caracas, 29 de Março de 2020

Aos Povos do Mundo

Ao cumprimentá-los com afeto, gostaria de dirigir-me a vocês na oportunidade de denunciar os graves eventos que estão a ocorrer contra a paz e a estabilidade da Venezuela, numa época em que a preocupação dos Estados e dos Governos deve se concentrar na proteção da vida e a saúde de seus habitantes, devido à aceleração da pandemia da COVID-19.

Como é do conhecimento público, em 26 de março o Governo dos Estados Unidos anunciou uma ação muito séria contra um grupo de altos funcionários do Estado venezuelano, inclusive eu, como Presidente Constitucional da República Bolivariana da Venezuela.

A referida ação consistiu em registrar uma acusação formal perante o sistema judicial dos EUA, que não é apenas ilegal por si só, mas também busca apoiar uma acusação falaciosa de narcotráfico e terrorismo, com o único objetivo de simular a suposta judicialização das autoridades venezuelanas.

Essa pantomima estadunidense inclui a oferta incomum de uma recompensa internacional a quem fornecer informações sobre o Presidente e altos funcionários venezuelanos, levando a um perigoso momento de tensão no continente, pelo qual considero necessário recontar os eventos, que revelam a trama perversa por trás das acusações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América.

Apenas um dia antes, em 25 de março, a República Bolivariana da Venezuela denunciou perante a opinião pública nacional e internacional, o desenvolvimento no território colombiano de uma operação que visava atentar contra a vida do Presidente da República, seus familiares e altos funcionários do Estado, bem como atacar alvos civis e militares em nosso país, indicando o Sr. Clíver Alcalá, general na reforma da força armada venezuelana, como chefe militar da referida operação.

Essa denúncia foi feita com total responsabilidade, depois que uma operação de controle na estrada ao norte da Colômbia, perto da fronteira com a Venezuela, foi lançada em 24 de março, na qual a polícia daquele país capturou um conjunto de armas de guerra em um veículo civil.

As investigações revelaram que era um arsenal sofisticado cujo alvo era um grupo de ex-forças militares e paramilitares venezuelanas e colombianas, que treinam em campos localizados na Colômbia.

Em 26 de março, o mencionado Clíver Alcalá deu uma declaração à mídia colombiana — desde sua residência na cidade de Barranquilla, Colômbia — na qual confirmou sua participação nos eventos denunciados, confessando ser o líder militar da operação e revelando que as armas foram adquiridas por ordem do Sr. Juan Guaidó, deputado nacional, que se autodenomina Presidente Interino da Venezuela e atua como operador de Washington no país. Da mesma forma, ele confirmou que o armamento tinha como objetivo realizar uma operação militar para assassinar personalidades de alto nível do Estado e do Governo venezuelano e produzir um golpe de Estado na Venezuela.

O Sr. Alcalá esclareceu que as armas foram adquiridas através de um contrato assinado por sua pessoa, o Sr. Juan Guaidó, assessores dos EUA, e o Sr. Juan José Rendón, consultor político do Presidente Iván Duque, e realizado com o conhecimento das autoridades do governo colombiano.

Diante dessa confissão, a resposta insólita do governo dos Estados Unidos foi a publicação das acusações mencionadas no início desta carta, com a inclusão extravagante do nome de Alcalá, como se ele fizesse parte das autoridades venezuelanas e não um mercenário contratado pelos Estados Unidos para realizar uma operação terrorista contra o governo venezuelano.

Como demonstração desta declaração, não preciso de outra prova senão mencionar a suposta captura do Sr. Alcalá pelas forças de segurança colombianas e sua entrega imediata às autoridades do DEA estadunidense, em um curioso ato em que o preso, sem algemas, estava se despedindo apertando as mãos dos seus captores, bem no pé da escada do avião que o levaria em um voo VIP especial para os Estados Unidos, o que mostra que, na realidade, todo esse teatro é sobre o resgate de alguém que eles consideram um agente estadunidense.

É preciso enfatizar que a operação armada frustrada foi originalmente projetada para ser executada no final deste mês, enquanto toda a Venezuela luta contra a pandemia da COVID-19. E é justamente esta a principal batalha que atualmente preocupa a humanidade. Uma luta que nossa nação está travando com sucesso, tendo conseguido parar a curva de contágio, reforçando as disposições sanitárias e mantendo a população em quarentena massiva, com um baixo número de casos positivos e mortes.

Por todas essas razões, o Governo da República Bolivariana da Venezuela alerta os nossos irmãos e irmãs das organizações políticas e movimentos sociais do Mundo, sobre os passos imprudentes e criminosos que está tomando o governo de Donald Trump que, apesar da terrível aceleração do crescimento da COVID-19 que afeta o povo estadunidense, parece determinado a aprofundar sua política de agressão contra Estados soberanos da região e, especialmente, contra o povo venezuelano.

Durante a pandemia, o governo dos Estados Unidos, ao invés de se concentrar nas políticas globais de cooperação em saúde e prevenção, aumentou as medidas coercivas unilaterais, rejeitou os pedidos da comunidade internacional para suspender ou aliviar as sanções ilegais que impedem a Venezuela de ter acesso a medicamentos, equipamentos médicos e alimentos.

Ao mesmo tempo, proibiu a implementação de voos humanitários dos Estados Unidos até a Venezuela para repatriar centenas de venezuelanos pegos na crise econômica e de saúde que o país do norte está vivendo.

A Venezuela, ao denunciar esses eventos graves, ratifica sua vontade inabalável de manter uma relação de respeito e cooperação com todas as nações, ainda mais nesta circunstância sem precedentes que obriga os governos responsáveis a trabalhar juntos e deixar de lado suas diferenças, como a pandemia da COVID-19.

Ante circunstâncias tão graves, solicito – mais uma vez — seu apoio inestimável para denunciar esta perseguição insólita e arbitrária, realizada por meio de uma versão atualizada daquele velho macartismo desencadeado após a Segunda Guerra Mundial.

Naqueles tempos, classificavam seus adversários à sua vontade, como “comunistas”, para persegui-los; hoje o fazem através das categorias fantasiosas de “terroristas” ou “traficantes de drogas”, sem provas de nenhum tipo. Condenar e neutralizar esses ataques injustificáveis contra a Venezuela hoje será muito útil para impedir que Washington realize campanhas semelhantes amanhã contra outros povos e governos do mundo. Todos devemos aderir aos princípios da Carta das Nações Unidas, princípios como o direito à autodeterminação, a soberania, a paz e a independência dos povos, para evitar que o unilateralismo desmedido leve ao caos internacional.

Irmãos e irmãs do Mundo, tenham a absoluta certeza que a Venezuela permanecerá firme em sua luta pela paz e que, sob quaisquer circunstâncias, ela prevalecerá. Nenhuma agressão imperialista, por mais feroz que seja, nos desviará do caminho soberano e independente que forjamos por 200 anos, nem nos afastará da sagrada obrigação de preservar a vida e a saúde de nosso povo diante da pavorosa pandemia mundial da COVID-19.

Aproveito esta oportunidade para expressar minha solidariedade e a do Povo da Venezuela a todos os Povos que hoje também sofrem sérias consequências dos efeitos da pandemia. Se alguma lição devemos tirar de toda essa difícil experiência, é precisamente que somente juntos podemos avançar. Os modelos políticos e econômicos que preconizam o egoísmo e o individualismo demonstraram seu total fracasso em enfrentar essa situação. Avancemos firmemente em direcção a um novo mundo com justiça e igualdade social, em que a felicidade e a plenitude do ser humano sejam o centro de nossas ações.

Agradeço a solidariedade expressa permanentemente por vocês em relação ao meu país e ao meu povo, denunciando o bloqueio criminoso ao qual nós e muitas outras nações estamos sujeitos.

Aproveito esta oportunidade para reiterar meu respeito e carinho e convidá-los a continuar unidos, arando um porvir de esperança e dignidade.

Atenciosamente,
Nicolás Maduro Moros