A obra RASD 50 anos – A longa marcha pela independência da última colônia da África, do historiador Sayid Marcos Tenório, consolida-se como uma das mais relevantes contribuições em língua portuguesa sobre a questão do Saara Ocidental. Mais do que um livro de história, trata-se de uma intervenção intelectual e política necessária, construída com rigor analítico, vasta documentação e um compromisso inequívoco com a justiça internacional.

Em um cenário em que a causa saaraui permanece frequentemente silenciada ou tratada de forma periférica, Sayid Marcos Tenório realiza um trabalho de fôlego, rompendo o apagamento, reconstruindo a memória histórica de um povo e expõe, com clareza e consistência, uma das mais persistentes contradições do sistema internacional contemporâneo.
A tese central da obra é contundente: o Saara Ocidental continua sendo a última colônia da África não por ausência de base jurídica para sua autodeterminação, mas pela deliberada falta de vontade política internacional para fazer cumprir o direito. Essa constatação atravessa todo o livro e transforma a leitura em uma reflexão crítica sobre os limites e seletividades da ordem global.
Um dos grandes méritos do trabalho está na reconstrução histórica da identidade saaraui. O autor desmonta narrativas que tentam reduzir esse povo a uma construção artificial ou circunstancial, demonstrando, com rigor histórico, que a nação saaraui possui raízes profundas, identidade própria e trajetória política anterior às imposições coloniais. Trata-se de uma contribuição fundamental para reafirmar a legitimidade histórica da autodeterminação saaraui.
No plano jurídico e diplomático, o livro se destaca pela robustez documental. Sayid Tenório organiza resoluções das Nações Unidas, pareceres da Corte Internacional de Justiça e decisões de tribunais internacionais para demonstrar que a legalidade sobre o Saara Ocidental permanece cristalina, pois trata-se de um território distinto do Marrocos, cujo povo detém um direito inalienável à autodeterminação. O mérito do autor está em transformar esse complexo arcabouço jurídico em leitura acessível, sem sacrificar densidade ou precisão.
A crítica ao papel das Nações Unidas é especialmente incisiva. O referendo de autodeterminação prometido há mais de três décadas jamais foi realizado, convertendo a missão da ONU, a MINURSO, em símbolo da paralisia diplomática internacional. O livro evidencia que o impasse não decorre de dificuldades técnicas, mas de bloqueios políticos sustentados por interesses geoestratégicos.
Outro eixo essencial é a abordagem da Frente Polisario, apresentada não apenas como ator político, mas como legítima expressão de uma luta de libertação nacional. Ao acompanhar sua trajetória, da resistência anticolonial à proclamação da República Árabe Saaraui Democrática, o autor revela uma experiência singular de construção estatal em condições de exílio, resistência e permanente adversidade.
A dimensão humana da obra é igualmente poderosa. Sayid Tenório ilumina a realidade dos campos de refugiados, o protagonismo histórico das mulheres saarauis e a resiliência de uma juventude formada sob o signo da resistência. O conflito deixa, assim, de ser apenas um tema diplomático abstrato e assume sua verdadeira dimensão humana, política e moral.
Particularmente relevante é a conexão estabelecida com a Palestina. Ao aproximar ambas as causas, o autor evidencia padrões comuns de ocupação prolongada, espoliação territorial, exploração de recursos naturais e impunidade internacional. Essa comparação amplia o alcance analítico da obra e insere a luta saaraui no contexto mais amplo das resistências anticoloniais contemporâneas.
No caso brasileiro, o livro também provoca reflexão necessária. Ao questionar a hesitação histórica do Brasil em reconhecer plenamente a República Saaraui, apesar do discurso recorrente em defesa do direito internacional, o autor convida o leitor a pensar sobre coerência diplomática e responsabilidade política.
Metodologicamente sólida, politicamente corajosa e intelectualmente comprometida, esta obra é resultado de um esforço notável de pesquisa e síntese histórica. Sayid Marcos Tenório entrega não apenas um estudo acadêmico, mas um verdadeiro instrumento de conscientização política.
RASD 50 anos não é apenas um livro sobre o Saara Ocidental. É uma denúncia contra a normalização da injustiça. É um chamado à memória, à solidariedade e à ação. Enquanto o Saara Ocidental permanecer ocupado, a descolonização africana seguirá incompleta. E trabalhos como este tornam-se indispensáveis para impedir que o silêncio se torne cumplicidade.
*Embaixador Ahamed Mulay Ali Hamadi é Diplomata Saaraui e Representante da Frente POLISARIO no Brasil.
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz