Por Moara Crivelente*
Sempre limitada a condenar personalidades e atitudes, nunca o regime de Israel, a União Europeia disse ser “inaceitável” o tratamento dado aos membros da Flotilha Global Sumud torturados e acossados pelo ministro Itamar Ben Gvir, gravado em vídeo. Mas são sistemáticos os ataques à solidariedade, por Israel e aliados. O alvo é a resistência do povo palestino e a de quem não se rende ao imperialismo.
É preciso reiterar à exaustão que os governos que mantêm relações normais com Israel são corresponsáveis ou falham no dever de deter o genocídio na Palestina. Também menosprezam as denúncias das comissões de inquérito da ONU e as condenações do Tribunal Penal Internacional ao Governo de Benjamin Netanyahu – que a UE tenta distinguir de Ben Gvir na sua modesta declaração – por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Tampouco agem para pôr fim a uma ocupação militar ilegal, prolongada há mais de cinco décadas, que assegura um projeto de colonização através de um regime de apartheid.
Os resultados de tanta impunidade ficaram mais evidentes desde que Israel intensificou medidas adotadas em vários outros ataques que lançou desde que sitiou Gaza, declarando-a “território inimigo”, junto com toda a população de quase 2 milhões de pessoas, em 2007. Aliás, também nenhum governo agiu para levantar o bloqueio, apesar dos reiterados avisos da ONU de que a vida se tornava insustentável como consequência do “desdesenvolvimento” provocado por Israel. Enfim, o rastro de catástrofes anunciadas, na verdade, estende-se por um século.
Portanto, os movimentos das flotilhas e dos comboios terrestres que tentam alcançar a Palestina são uma resposta à inação ou à cumplicidade que garantem a impunidade de Israel. Talvez o mesmo sentido de responsabilidade tenha feito com que Rachel Corrie, a estadunidense de 23 anos, se colocasse entre uma retroescavadeira israelense e um lar em Gaza, acabando por ser esmagada, em 2003, com que outras flotilhas tenham se lançado ao mar e sido assaltadas por soldados israelenses que mataram 10 dos seus companheiros, em 2010, ou com que outros se juntassem à resistência nos campos de refugiados palestinos no Líbano, cenários de verdadeiros massacres, nos anos 1970 e 1980. A persistência da solidariedade torna-se uma questão ética, de praxis.
Há 10 anos, eu li um pequeno manifesto que capta este sentido na parede de um centro de detenção de Israel, uma promessa que as autoridades entendem como uma ameaça: “para cada membro do Movimento Internacional de Solidariedade deportado, mais dez virão”. Saída de lá, eu escrevi sobre como o processo de interrogatório e detenção que antecedeu a expulsão e a proibição de retornar deixou claro que Israel busca erguer outro muro para o movimento de solidariedade – detendo palestinos vindos do exílio, impedidos de visitar família e lar, e apoiantes de todos os continentes, inclusive judeus antissionistas. Com isto, Israel tenta empregar mais um mecanismo no sufocamento da resistência coletiva.
A e o palestino que resiste é deslegitimado e reprimido como terrorista desde que os britânicos ocuparam a Palestina e implementaram o Mandato conferido pela Liga das Nações para promover o projeto colonial sionista, no início do século 20. Assim, o Estado de Israel herdou dos britânicos um rico arcabouço de ordens militares ou outros regulamentos usados até hoje para o mesmo efeito.
Uma das suas inovações, contudo, foi a criação de legislação e de um Ministério de Assuntos Estratégicos dedicado a perseguir apoiantes do movimento por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) lançado pelos palestinos em 2005, inspirados pelo movimento sul-africano contra o Apartheid. O Parlamento também aprovou uma lei que proíbe a entrada destas pessoas no país – e, efetivamente, nos territórios palestinos sob o seu controle.
Em todos os âmbitos – na mídia, na academia, nos Parlamentos e nas ruas, mesmo no auge do genocídio, o condicionamento – ou a censura – às vozes dos e das palestinas e à solidariedade foi vil até mesmo enquanto se retirava crianças de baixo dos escombros. Em Israel, forças como o Partido Comunista, que lidera a Hadash – Frente Democrática de Paz e Igualdade, com judeus e árabes, são duramente reprimidos, têm mandatos suspensos no Parlamento, as suas sedes invadidas e o seu material, inclusive bandeiras palestinas, confiscado.
Nos centros ditos democráticos, os governos aliados fazem o seu serviço – não só para satisfazer Israel, mas porque é preciso controlar a mobilização coletiva. O movimento “Palestine Action” foi proscrito na Inglaterra sob leis de combate ao terrorismo, num processo sendo revertido pela ação popular. Na França e na Alemanha, protestos com bandeiras palestinas e acampamentos foram proibidos ou brutalmente reprimidos. Nos EUA, professores foram demitidos e estudantes foram sequestrados nas ruas, interrogados, detidos e alguns estrangeiros, deportados. A própria relatora da ONU Francesca Albanese foi sujeita à perseguição e à intimidação por Israel, por entidades lobistas e pelo governo Trump, que lhe impôs sanções por cumprir o seu mandato.
Diante da pressão pública expressa, por exemplo, na petição assinada por mais de 1 milhão de cidadãos europeus pela suspensão, a UE mantém ativo o Acordo de Associação com Israel, optando pela medida minimalista de adotar novas sanções contra alguns colonos considerados “extremistas” por cometer atos terroristas e o assassinato de palestinos. Assim, individualiza o problema e isenta a colonização em si, numa conhecida operação ideológica de abstração. Mas tanto pelo papel histórico das potências europeias quanto pela hegemonia neoliberal, a própria UE atua como um protagonista da colonialidade do poder, descrita por Aníbal Quijano, que mantém a hierarquia global de classe e raça estruturada pelo imperialismo. Estudos demonstram, por exemplo, como os discursos de representantes como a presidente da Comissão Europeia Ursula von Der Leyen reproduzem a supremacia israelense através da desumanização do povo palestino. E assim também o menosprezo ou a repressão à solidariedade com este povo se explica. Sob regimes coloniais, como dizia Frantz Fanon, a brutalidade da repressão parece ser a única resposta à persistência da resistência. Portanto, seja a resposta violenta de Israel ou a conivência e a ação direta na repressão à solidariedade por governos aliados, fica exposta também a colonialidade do poder global porque há resistência.
*Moara Assis Crivelente é doutora em Relações Internacionais; membro da Direção Executiva do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ) e do Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois; pesquisadora pós-doutoral no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
