ARTIGO | José Reinaldo – O Hezbollah tem razão

Por José Reinaldo Carvalho*

A Resistência libanesa rejeita a encenação do cessar-fogo e afirma que a luta só terminará com o fim da agressão israelense

O Hezbollah tem razão ao rejeitar um cessar-fogo, que na verdade é uma farsa encenada pelos imperialistas estadunidenses e os sionistas israelenses, combinada com as medidas de força que pretendem impor ao povo libanês. Tais medidas condicionam a soberania do Líbano, estabelecem o desarmamento unilateral da resistência, sem garantir a retirada israelense, o fim da ocupação, dos ataques e a segurança do povo libanês.

A posição expressa pelo secretário-geral do Movimento de Resistência Islâmica Libanesa, Sheikh Naim Qasem, na última quinta-feira (4), é uma justa reação enérgica a mais uma proposta patrocinada por Washington. “Rejeitamos qualquer ligação entre a existência da resistência e a cessação da agressão e a retirada de Israel”, afirmou o secretário-geral. É a denúncia de uma lógica que se repete desde 2024: acordos anunciados como caminhos para a paz, mas estruturados de modo a preservar a margem de ação militar de Israel e a pressionar o Líbano a aceitar condições incompatíveis com sua soberania.  

A experiência recente confirma essa leitura. Todos os acordos de cessar-fogo patrocinados por EUA e Israel desde 2024 fracassaram em produzir estabilidade duradoura. Também fracassaram os pactos costurados desde a guerra desencadeada desde o início de março último. A cada nova rodada, o mesmo roteiro se repete: Washington anuncia uma solução, Israel preserva sua capacidade de atacar, e o Líbano é pressionado a fazer concessões estratégicas em nome de uma normalidade que nunca chega.

O problema, portanto, não está na resistência libanesa, mas na arquitetura desses acordos. São propostas que exigem do Hezbollah renúncias definitivas, capitulação, enquanto oferecem ao Líbano garantias frágeis, condicionadas e reversíveis. O cessar-fogo anunciado pelos EUA, nas palavras de Qasem, nasceu de “negociações diretas inúteis, humilhantes e vergonhosas com o Líbano”, que lançam as bases para a submissão do país ao projeto do “Grande Israel”.

É uma acusação coerente com os fatos.  O próprio anúncio de um cessar-fogo, segundo as informações divulgadas, não impediu que Israel declarasse a continuidade de suas operações no sul do Líbano. E reafirmasse que os libaneses expulsos de suas casas não poderiam retornar. Que tipo de trégua mantém a ocupação, prolonga o deslocamento forçado e preserva a ameaça permanente contra civis?

A resposta do Hezbollah parte dessa contradição. Qasem afirma que “ninguém tem o direito de interferir nos assuntos internos do Líbano, na vida política, econômica e social do povo libanês, ou nas decisões que tomam a respeito da soberania e da proteção de seu país dentro da estrutura de sua estratégia de segurança nacional acordada”. Em outras palavras, o movimento rejeita que uma potência estrangeira, atuando em coordenação com Israel, decida quais instrumentos de defesa o Líbano pode ou não manter.

Essa é a dimensão central do debate. O desarmamento da resistência não aparece como consequência de uma paz justa, mas como pré-condição imposta antes mesmo do fim da ocupação e da agressão. Por isso Qasem adverte que fazer do desarmamento o objetivo principal de qualquer acordo significa destruir o poder do Líbano e criar “uma ameaça existencial ao seu povo”. A lógica é simples: retirar do país sua capacidade de dissuasão enquanto o adversário mantém tropas, aviões, drones e liberdade operacional não é pacificação. É rendição.

O Hezbollah também tem razão ao denunciar a tentativa de separar o sul do Líbano do restante do país. Um cessar-fogo parcial, que deixe áreas libanesas expostas à ação israelense, apenas normaliza a violência seletiva. Por isso, Qassem defende “um cessar-fogo abrangente, sem separação entre o sul e o resto do Líbano, e sem que o inimigo israelense tenha liberdade para matar no Líbano”. A formulação é decisiva: não se trata de recusar a paz, mas de recusar uma trégua que preserve o direito israelense de continuar atacando.

A unidade nacional, invocada pelo dirigente do Hezbollah, torna-se nesse contexto uma necessidade estratégica. “Esta é uma fonte de força para todos nós”, disse Qasem. Ao apelar às autoridades libanesas para que ponham fim à “farsa e humilhação chamada negociações diretas”, ele aponta para a fragilidade de um Estado colocado diante de pressões externas e de uma correlação de forças profundamente desigual. A soberania libanesa não pode ser reconstruída a partir da submissão, mas da capacidade de reunir seu povo em torno de uma posição comum contra a agressão.

O argumento de Qasem ganha ainda mais peso quando se observa que Israel, mesmo diante de anúncios de cessar-fogo, continua a tratar o Líbano como espaço militar disponível. A ordem de Benjamin Netanyahu e Israel Katz para atacar os subúrbios do sul de Beirute mostra que a ameaça sobre a capital libanesa permanece ativa. A resistência, nesse quadro, é uma resposta política e militar à permanência da ameaça.

A denúncia de que o anúncio dos EUA busca “sabotar e desestabilizar o Líbano, incitar a discórdia entre os libaneses em benefício de Israel e alcançar pela política o que não conseguiu pela guerra” deve ser lida dentro desse histórico. Quando a guerra não destrói a resistência, tenta-se enquadrá-la por meio de acordos que a isolam, criminalizam e desarmam. A política passa a cumprir a função que os bombardeios não conseguiram realizar.

Há, portanto, uma coerência interna na posição do Hezbollah. O movimento não rejeita o fim das hostilidades. Rejeita a chantagem de transformar o cessar-fogo em instrumento de desarmamento unilateral. Rejeita a ideia de que a soberania libanesa possa ser definida por Washington ou Tel Aviv. Rejeita, sobretudo, que a segurança de Israel seja tratada como prioridade absoluta enquanto a segurança do povo libanês permanece negociável.

“Enquanto a ocupação persistir, a resistência continuará”, afirmou Qasem. A frase resume o núcleo político da questão. Não se pode exigir o fim da resistência sem enfrentar a causa que a sustenta. Não se pode pedir estabilidade ao Líbano enquanto Israel mantém presença militar, bombardeia, desloca populações e condiciona a vida civil libanesa às suas próprias decisões de segurança.

Por isso o Hezbollah tem razão. Não porque a guerra seja desejável, mas porque nenhum povo pode ser obrigado a aceitar como paz uma fórmula que conserva a ocupação, legitima a agressão e exige a renúncia de sua defesa. A paz verdadeira no Líbano exige a retirada de Israel, soberania, segurança para os civis e fim da liberdade israelense de matar. Sem isso, qualquer cessar-fogo será apenas mais um anúncio fracassado em uma longa série de pactos impostos de fora e desmentidos pela realidade no terreno.

*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz

Membros do Hezbollah realizam um funeral em 24 de novembro de 2025 em Beirute, Líbano, em memória do chefe militar assassinado, Haytham Ali Tabatabai. (Foto de Scott Peterson/Getty Images)