Por Gustavo Guerreiro*
A história adora pregar peças. E a mais recente ocorreu quando o governo estadunidense, sob a sofreguidão de Donald Trump pelo reordenamento global, classificou formalmente as maiores facções criminosas brasileiras como “organizações terroristas estrangeiras”. Apesar do estardalhaço que a notícia causa nos meios midiáticos, políticos e em grande parte da intelectualidade brasileira é possível, sem tirar nem pôr, assistir de camarote algumas velhas e convenientes certezas desabando.
Tendemos a crer, talvez entorpecidos pela quantidade de notícias absurdas diariamente, que as bravatas destiladas por Trump contra a América Latina não passam de um espetáculo eleitoral focado em agradar seus redutos radicais. Outra grande ilusão é a de que o pré-candidato bolsonarista teve papel determinante, lhe sendo atribuída uma importância além da de capacho dos interesses ianques. Puro engano. A repentina reclassificação jurídica das facções narcotraficantes brasileiras opera, na verdade, como um mecanismo de pressão geopolítica hemisférica.
A medida não distingue quem é santo ou demônio. Foi assim que, de maneira absolutamente dialética, ela parece ter desestabilizado o intrincado labirinto ideológico que sustenta a décadas as nossas Forças Armadas. A astúcia da razão, como ensinou Hegel ao observar as contradições do espírito humano, tem dessas coisas. Uma ação imperialista dessa magnitude não passa sem produzir efeitos colaterais. Diante da ilusão de que as forças armadas brasileiras permaneceriam em sua eterna latência, Washington talvez tenha despertado a Caserna para sua missão precípua: a defesa da soberania brasileira.
Trata-se apenas de uma percepção sem nenhum lastro científico. Blogs de assuntos militares, como o Defesa em Foco, publicou em março de 2025 o artigo “Trump, geopolítica e a fragilidade estratégica do Brasil” (https://www.defesaemfoco.com.br/trump-geopolitica-e-a-fragilidade-estrategica-do-brasil/). Esse artigo trata da vulnerabilidade estratégica do Brasil diante das imposições dos EUA para uma ordem global mais fragmentada e agressiva. O texto expõe a falta de uma política externa clara e de alianças sólidas do país. Como este, outros estão sendo produzidos. Isso não significa dizer que houve uma guinada ideológica castrense. Mas as condições apontam para um ajuste, uma vez que a potência imperialista do Norte se mostra cada vez mais hostil.
Ao transformar um problema crônico de segurança em um conveniente pretexto para a intervenção extraterritorial, Washington transforma o território brasileiro em alvo potencial. Subitamente, diante do abismo de sua histórica sabujice, irão os generais se dar conta de que o alinhamento automático jamais conferiu status diferenciado à Caserna e seus próceres? Ou apenas tiveram um alvo pintado em suas costas?
Para entender a gravidade dessa reclassificação semântica imposta de fora para dentro, é necessário superar a ingenuidade crônica das elites econômica brasileiras. É preciso voltar os olhares para a derrocada do atual sistema-mundo, com atenção especial para Venezuela e Irã. A ordem mundial, esfacelada pelo direito militarizado, encontra na aplicação do rótulo de “terrorismo” o léxico imperialista de Washington.
Trata-se de uma implacável artimanha jurídica. É o sinal verde para autorizar – sem nenhum pudor institucional ou contenção burocrática – operações de sabotagem, operações militares, estrangulamento econômico e até bombardeios. O já complicadíssimo enfrentamento ao crime organizado é subsumido pela decisão unilateral da guerra global ao terror, pretexto maior para reduzir a pó a soberania de qualquer país que ouse se autodeterminar.
Este trágico propósito me remete à brilhante tese sociológica do historiador Gopal Balakrishnan, que resgatando Weber, elabora uma teoria sobre a gênese violenta dos Estados modernos. Balakrishnan afirma que “é durante a guerra que a nação é imaginada como uma comunidade que incorpora valores supremos”. Nada é tão poderoso e capaz de unir uma nação como a perspectiva de uma guerra, nem a seleção brasileira, nem o Pix, nem Shakira em Copacabana.
A mera insinuação diplomática de que tropas de marines estadunidenses têm sinal verde para desembarcar no Brasil (embora seja improvável à primeira vista) choca as nossas Forças Armadas. Esse sinal de alerta obriga o establishment reacionário a repensar a função da própria Defesa. Fica claro que o Brasil não pode continuar a ser concebido institucionalmente uma imensa delegacia de polícia. O Estado, estruturado invariavelmente para conter a massa de indesejáveis urbanos descartados pelo capital, passa ser encarado como uma comunidade política soberana sob ameaça existencial.
O “campo de batalha” deixou de estar restrito às periferias e favelas. Foi deslocado para nossas cobiçadas fronteiras. Essa mudança expõe a brutal assimetria de visões estratégicas dentro das FFAA, algo permanentemente excluído do debate público pela imprensa comercial.
De um lado, um Exército historicamente afogado no lodaçal da Doutrina de Segurança Nacional (DSN), que na eterna vigilância contra um fantasmagórico “inimigo interno”, foi domesticado pela rotina brutal e inócua das Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e agora na reclamação dos cortes de verbas para “vigilância” de fronteiras. As infindáveis portarias publicadas no Diário Oficial da União nos mostram esse Exército é viciado em enxergar no cidadão marginalizado um eterno fator subversivo.
De outro lado, encontramos setores altamente técnicos da engenharia militar, especialmente a Marinha, que ainda mantêm em uma perspectiva estratégica de longo prazo. Estou me referindo ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), inegavelmente um dos mais raros e atacados lampejos de soberania das nossas últimas décadas, pois envolvia também o desenvolvimento de tecnologia nuclear, um dos pilares estratégicos mencionados na Estratégia Nacional de Defesa de 2008. Quando o acordo de transferência de tecnologia com a França foi estabelecido, os engenheiros franceses solicitaram a colaboração da construtora Odebrecht para tornar o projeto viável, reconhecendo a inegável competência técnica da engenharia brasileira.
Era a única empresa do hemisfério sul dotada da capacidade civil pesada capaz de viabilizar o gigantesco estaleiro nuclear de Itaguaí. Contudo, a fúria do lawfare destrutivo da Lava Jato de Sérgio Moro, Dalagnol e demais agentes a serviço do Departamento de Justiça dos EUA, a nossa engenharia nacional de ponta foi desmantelada. Diante do perigo iminente de uma intervenção estrangeira, pergunto: será que agora o Exército passará a enxergar a soberania com a lente estratégica, científica e de longo alcance da engenharia naval? Ou continuará patologicamente obcecado pela caça cega ao fantasma do “inimigo interno” comunista?
Para responder essas questões é preciso compreender a profunda crise de identidade que se abate sobre a Caserna desde o fim da ditadura militar, segundo o historiador Manuel Domingos. Por décadas, o Exército tem sido mantido artificialmente relevante por meio de uma dupla função: a atuação como polícia de fronteira e a execução de ações de assistência social. Tudo isso ocorre sob a subserviência estratégica ao guarda-chuva da segurança hemisférica dos EUA. Essa equação é vantajosa. O Brasil atribui aos generais maior importância do que eles realmente possuem. Isso permite que usufruam de orçamentos, benefícios previdenciários e salários diferenciados, prestígio e influência política sem nunca ter que lidar com o perigo real de proteger o território nacional de uma ameaça externa concreta.
Os militares agora se confrontam com um paradoxo que se manifesta em toda a sua crueldade. O “aliado” que, durante décadas ofereceu uma justificativa ideológica para a seu protagonismo contra o combate ao comunismo, à subversão e ao inimigo interno agora aponta seus canhões contra o Brasil. Quando Washington reclassificou facções criminosas, na verdade reclassificou o Brasil. Ao tratar nosso país como “abrigo de grupos terroristas”, passou a reservar para si o direito soberano de agir no nosso território sempre que julgar conveniente. É a mesma lógica que antecedeu o Kosovo, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e, recentemente, a Venezuela. A quem ainda duvida que o léxico precede os bombardeios, revisite a história recente com mais atenção.
Neste momento, a questão que se apresenta não é de natureza político-ideológica, no sentido mais restrito e eleitoral, mas sim estrutural. A décima economia global e segunda maior das Américas é detentora da maior reserva de água doce, da maior biodiversidade e da maior floresta tropical. Ela possui imensas reservas de petróleo e a segunda maior reserva de terras raras, que se atreve a agir de forma independente. Portanto, precisa ser controlada. Adiciona-se a isso o seu potencial nuclear latente, evidenciado pelo PROSUB e pelo controle da tecnologia de enriquecimento de urânio. Em qualquer análise geopolítica séria, o Brasil não é considerado um país periférico. Trata-se de um ator de primeira grandeza.
A tragédia brasileira é que todo esse potencial colossal convive com uma classe dirigente que o negligencia. A clássica interpretação de Florestan Fernandes em “A Revolução Burguesa no Brasil” define a nossa elite econômica não como uma burguesia clássica, mas como uma autocracia burguesa, incapaz de liderar um projeto de nação autônomo em nome de uma dependência de ganhos imediatos e em prejuízo do povo. Essa classe consolidou um modelo de capitalismo dependente que caracteriza nossa economia até hoje. A diferença é que o custo dessa abdicação histórica nunca foi tão alto.
O cenário imposto por Washington nos coloca, portanto, em uma encruzilhada histórica, pois força a pergunta maior que o pacto de silêncio das elites brasileiras sempre tentou sufocar: para que serve, afinal, um exército que não defende o próprio país? As ações de GLO, o patrulhamento de fronteiras nas operações Ágatha – que são uma extensão da política antidrogas estadunidense –, a participação em missões da ONU e as ações assistencialistas compõem um cardápio de funções subsidiárias, em que algumas desviam a missão precípua do Exército, que busca apenas prestígio e orçamento. Os generais jamais se preocuparam em desenvolver uma doutrina militar verdadeiramente soberana, que defendesse o povo brasileiro e sua diversidade e que fosse orientada pela defesa do interesse nacional.
O que a conjuntura atual exige é o oposto: priorização da capacidade de dissuasão, autonomia tecnológica, soberania territorial, inteligência estratégica independente, unidade na diversidade, construção de uma zona de paz e cooperação com nossos vizinhos. Sobretudo, uma política externa que não oscile aos sabores dos ventos do norte que, como diz a canção de Ney Matogrosso, não movem moinhos. Mas a reconstrução dessas capacidades não se dá em intervalo de anos, mas de gerações. E esse projeto pressupõe a superação do ciclo de dependência que é frequentemente defendido pela extrema-direita e aprofundado em operações de lawfare como a Lava Jato e outras, que tentaram desmontar os pilares industriais e tecnológicos, sobre os quais a soberania nacional deve estar assentada.
Nesse sentido, a questão do título deste artigo — “o militar acordou” — não requer somente uma resposta binária. O que a conjuntura atual parece indicar é um despertar fragmentado, assimétrico e ainda sem direção clara, que pode, inclusive, não dar em nada. Diante das experiências recentes, entendo que há sinais sutis de que setores das Forças Armadas começam a perceber que o alinhamento automático com Washington deixou de ser um passaporte para a Disney para se tornar uma vulnerabilidade. Não sejamos ingênuos! Esse possível despertar coexiste tensionado com a persistência de uma cultura institucional profundamente colonizada e seus próceres ideológicos contemporâneos.
A história, como se disse no início, adora pregar peças. E talvez esta seja uma das mais irônicas, uma vez que foi necessário um presidente estadunidense errático, movido por impulsos narcisistas e cálculos eleitorais de curto prazo e mal feitos para lembrar ao Brasil que ele existe como nação. A grande lição que fica é que para existir como nação, é preciso coragem, estratégia e unidade nacional, algo que nenhuma subserviência estratégica seria capaz de produzir.
*Gustavo Guerreiro é pesquisador do Observatório das Nacionalidades e diretor de pesquisa do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
