A confiança política dos povos

O voto só é livre quando existe a possibilidade de escolher um candidato que se identifique realmente com o povo. Esta condição tem-se expandido por vários paises da América Latina, avança pela América Central e surpreende o mundo quando chega aos Estados Unidos, tristemente conhecido como "polícia do mundo" e "potência invasora" que cultiva o terrorismo, é o pólo consumidor de droga, invade e mata populações indefesas com falsos pretextos de ameaça.

Barack Obama foi eleito provocando uma alegria indizível aos humilhados do povo norteamericano – negros, latino americanos, indígenas, trabalhadores pobres, jovens carregados de esperança, homens e mulheres que sempre combateram pelas causas sociais, democratas desencantados com a política nacional que há tantas décadas oprime a nação, polui o planeta e agride a humanidade. Naquele momento o povo dos Estados Unidos sentiu pela primeira vez a espontânea solidariedade mundial dos que sendo anti-imperialistas, sentiram-se irmanados com o povo norteamericano também vítima dos governantes que conduziram aquele país por caminhos cruéis e desumanos por mera ambição de poder. Brilhou uma luz que tornava possível ao mundo acreditar na viabilidade de um convívio democrático.

O novo Presidente introduziu na Casa Branca uma figura que incorpora os valores humanos mais comuns às pessoas que cultivam a simplicidade, a honestidade, a responsabilidade social. Mostrou que para ocupar o posto maior da elite nacional pode manter as qualidades naturais que o povo valoriza. Quebrou, como Lula no Brasil e Evo Morales na Bolívia (apesar das conhecidas diferenças), a falsa imagem estabelecida secularmente de que os valores de um Presidente se traduzem pela origem na classe dominante, nas famílias oligarcas influentes, pelos títulos institucionais alcançados, pelas propriedades de empresas multinacionais, pelas honrarias prestadas pelos seus pares. Surgiu um novo modelo de liderança efetiva conquistada pelas suas qualidades humanas e o seu exemplo de luta pelo desenvolvimento pessoal e do seu povo. Um igual, que conhece a vida difícil e a realidade em que cresce o cidadão comum no seu país. Daí a esperança que um presidente verdadeiramente democrata escolha o melhor caminho para a maioria. Alguém que desperta a vontade de cada um dar o melhor de si participando nos programas de ação nacionais e internacionais.

A missão desses presidentes populares é mais difícil que para os expoentes da elite social. Terão de corrigir as metas anteriormente apontadas para os lucros e o domínio que esmagam a humanidade, agora tendo em conta o equilíbrio da formação e da produção que constroem a dignidade nacional. Terão de conhecer as questões externas para consolidar laços de solidariedade e intercambio para promover o desenvolvimento mundial. Terão de eliminar as armas de destruição que ameaçam a humanidade e extirpar a tendência imperialista de manipular a informação para se imiscuir no equilíbrio de outros povos e de invadir os territórios das outras nações.

A história dos Estados Unidos passou por uma fase revolucionária de luta pela independência, caminhou no isolacionismo para se livrar das ambições européias e fortalecer o desenvolvimento interno nacional até dar início ao expansionismo que manchou a vocação democrática inicial. Avançou sobre o território do México, depois sobre o Panamá que pertencia à Colômbia, e com falsos pretextos dominou vários países vizinhos que não tiveram força interna para defender a sua autonomia. As grandes guerras mundiais abriram caminho à política imperialista que os últimos governos, antes de Obama, levaram às invasões do Afeganistão e do Iraque, depois de passarem pela derrota no Vietnam onde as forças norte-americanas cometeram os maiores crimes contra a humanidade com o uso de elementos químicos de alta destruição. E, mesmo assim, foram derrotados.

Esse percurso histórico oferece uma riqueza de bons exemplos de coragem e dignidade que Obama se propõe restaurar para atender aos anseios do seu povo que sofre com a negação dos valores que honram a sua história. É um enorme desafio contra as forças retrógradas que foram instituídas no sistema político e econômico dos Estados Unidos e permanecem em posições estratégicas de poder apesar do presidente democrata. São representadas por antigas elites governantes que fixaram os seus tentáculos em muitos países submissos que cederam bases para uso militar ou onde, por infiltração de agentes, corrompem as forças de segurança nacionais. O atual presidente revela sensibilidade, inteligência e habilidade, conectadas com a grande massa popular que o apóia. Tem pela frente um caminho acidentado que merece o respeito e o acompanhamento mundial.

Os povos de todo o mundo repudiam o imperialismo que trai os direitos humanos estabelecidos ao longo dos dois últimos séculos pelas lutas nacionais e internacionais e ameaça o equilíbrio das sociedades ferindo os direitos universais de autonomia e independência. Temem pela segurança de Obama que decidiu enfrentar o risco de ser eliminado pelas forças de oposição interna, como Kennedy o foi, mas tudo farão para que o fim das ações imperialistas não se torne mais um "sonho" como o de Lutter King, também assassinado.

         Vivemos uma nova era política em que o diálogo e a participação dos cidadãos abre possibilidade de serem encontradas soluções concretas para os problemas cada vez mais graves – com ameaças à sobrevivência das espécies naturais e crises do sistema capitalista mundial –  que os governos elitistas não são capazes de resolver. Alianças entre forças políticas até então adversárias tornam-se possíveis para enfrentar problemas comuns da realidade social. Caem preconceitos que por séculos restringiram a compreensão racional de grandes setores da humanidade, conceitos históricos, como "imperialismo", deixam de ser manipulados como mera expressão agressiva da linguagem de esquerda para ser entendido como uma estratégia de poder abusiva e criminosa que existe há cerca de dois séculos como prática das nações mais ricas contra os povos subdesenvolvidos. O diálogo fomenta o conhecimento da realidade nua e crua que afeta toda a humanidade e desvenda os preconceitos que o limitam. O valor do diálogo está assegurado pelo respeito entre os interlocutores e será destruído se a nova linguagem for apenas uma máscara mal intencionada.

As situações dos países terão de ser revistas em função desta conquistas democráticas que a nova era política anuncia. Impossível aceitar a existência de bases militares estrangeiras em qualquer nação ou a presença de armamentos que circulam pelos mares – como a 4ª Frota reativada por Bush para pressionar a América Latina – ultrapassando os limites convencionais dos territórios nacionais. São afrontas ao sistema democrático que se consolida.

Outra análise deverá ser feita sobre os graves problemas de segurança pública que hoje se espalham por todo o planeta ligados ao mercado e consumo da droga e à prática de crimes terroristas. A história sempre demonstrou que os processos de expansão e dominação por povos mais fortes sempre fizeram uso do mercado da droga e da prática do terror para quebrar a resistência de populações indefesas. Assim foi a conhecida "guerra do ópio" que facilitou o domínio do colonialismo inglês na China, ou o apoio norte-americano aos talibãs que invadiram o Afeganistão abrindo caminho à projeção de Bin Laden que, no caso do Iraque, foi a o pretexto para a invasão norte-americana. O terrorismo praticado por civis é a forma de rebeldia que se opõe ao tratamento policial organizado por forças invasoras que condenam culturas e religiões dos povos dominados. É a resposta desesperada de quem não se pode defender do opressor, é um suicídio.

Os povos não querem suportar os impasses que governantes nos Estados Unidos enfrentaram como o que explicou John Kenneth Galbraith (no seu livro "Contando Vantagens") a propósito do lançamento de duas bombas atômicas sobre o Japão autorizado por Truman quando o fim da guerra já estava decidido : "Na época e no contexto" (da política interna dos Estados Unidos) escreveu Galbraith, "Harry Truman não tinha outra escolha". O autor explicita mais adiante: "As bombas nucleares podiam ser inimaginavelmente cruéis e possivelmente desnecessárias, mas também o foram os ataques ao final da guerra sobre Dresden e as bombas comuns e incendiárias sobre Tóquio, estas últimas trazendo morte e destruição maior que a que ocorreu em Hiroshima e Nagazaki."

As ações imperialistas que ameaçam a humanidade têm servido de moeda de troca para o governo norte-americano corrigir internamente os problemas criados e defendidos pela oposição mais conservadora. Só esta função explica a necessidade de um país investir trilhões de dólares para manter guerras e destruição de nações independentes com falsos pretextos de "pacificação e combate ao terrorismo ou ao narcotráfico" que encobrem a dominação de fontes de riqueza e regiões estratégicas para o plano expansionista. Esta foi a lógica usada por Truman para praticar os genocídios na Alemanha e no Japão.

         Obama não se revela como Truman. Ao contrário, as suas palavras de posse e em toda a campanha eleitoral, traduziram uma elevada consciência da responsabilidade humana de que se reveste o cargo de Presidente dos Estados Unidos. Mas a máquina imperialista, cruel, historicamente criminosa, ainda existe e exerce pressões para que o seu "destino", particular – hoje identificado com o dos que destroem a natureza e a humanidade para alcançar o poder e os lucros – seja confundido com o destino da nação. Essa máquina encontra parceiros em vários pontos do planeta que estão dispostos a vender a pátria para fazer parte de um pedaço do poder conquistado com as invasões.

As medidas democráticas anunciadas por Obama – suspensão das torturas nas prisões americanas, abertura com Cuba, diálogo com antigos inimigos, conhecimento dos pontos de vista dos adversários políticos, atenção médica para a população mais pobre dos Estados Unidos, etc. – faz crescer a oposição reacionária interna que exigirá como moeda de troca a opressão sobre outros povos onde existam recursos naturais que compensem os seus prejuízos internos. Esta é a função econômica do imperialismo.

Obama, ao afirmar que a estratégia do seu governo é "combater o terrorismo" intensificando a guerra no Afeganistão, não leva em consideração todos os textos produzidos por importantes intelectuais norte-americanos e ingleses sobre  a responsabilidade dos Estados Unidos, sob a batuta de Bush, na "disseminação do terrorismo e da violência"como demonstra Noam Chomsky no seu livro "Estados Fracassados – o abuso do poder e o ataque à democracia" citando inúmeros relatórios oficiais ingleses e norte-americanos sobre as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Bósnia e no Oriente Médio.

Vemos hoje que a vitória de Obama abriu as comportas anti-imperialistas dentro das nações que  se consideraram "impérios" capazes de "impor" a democracia aos outros, aos mais fracos. O analista de segurança nacional e inteligência John Prados descreveu o esquema de Bush (a propósito do Iraque) como "um caso lapidar de desonestidade governamental" para levar adiante o embuste das "informações constantemente distorcidas, manipuladas e ignoradas (…) a serviço de uma empreitada particular sob falsos pretextos". E conclui: "Os norte-americanos não apenas foram ludibriados pelo jogo das três cartas de Bush, como também passaram vergonha perante o mundo". Robert Page que estudou profundamente os homens-bomba, escreveu que "a Al-Qaeda é hoje menos um produto do fundamentalismo islâmico do que um objetivo estratégico simples: obrigar os Estados Unidos e seus aliados ocidentais a retirarem suas forças de combate da Península Arábica e de outros países muçulmanos". Michael Sauer. Analista da CIA responsável por rastrear Osama bin Laden, informou: "as forças e as políticas norte-americanas estão consumando a radicalização do mundo islâmico (…) é justo concluir que os Estados Unidos da América continuam sendo os únicos aliados indispensáveis de bin Laden". Ninguém mais duvida de que a violência contra os povos, tanto na invasão dos territórios como na promoção interna de conflitos raciais ou religiosos, gera o terrorismo que expande-se pelo mundo.

O imperialismo hoje deixou de ser um conceito somente utilizado pela esquerda no combate à exploração econômica – a idéia de império é antagônica à de democracia em todos os sentidos. A consciência de cidadania e de dignidade nacional leva as populações, de todas as classes sociais, a compreenderem a história do século XX e XXI, ainda na memória da maioria que a viveu, a partir dos abusos de poder que hoje estão sendo desvendados minuciosamente. Por isso a América Latina respira ao eleger presidentes populares e os Estados Unidos vibram ao elegerem um democrata negro que expõe princípios de justiça social e respeito pela dignidade humana.

         O risco é grande para quem se opõe às injustiças em qualquer lugar do planeta, principalmente nos Estados Unidos que se considera "polícia do mundo". Se houver vontade política no governo de Obama para um verdadeiro diálogo com os que representam a humanidade, um novo caminho será traçado e defendido pela maioria. O caminho democrático que os bilhões de seres humanos no planeta esperam para serem respeitados; o caminho que as crianças de hoje estão conhecendo através das escolas e dos exemplos públicos de políticos que ousam propor mudanças profundas. A paz é o maior anseio dos que amam a vida e a humanidade.

        

Zillah Branco 

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