Socorro Gomes: “Obama é um desastre para a América Latina”

Em 20 de janeiro, Barack Obama completará um ano à frente da Casa Branca. Na opinião da presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta dos Povos), Socorro Gomes, sua gestão tem sido, até aqui, “um desastre para a América Latina”.

Segundo ela, a ação do governo dos Estados Unidos diante do golpe militar em Honduras é uma prova de que o sucessor de George W. Bush deve fazer “um pouco mais que acenos” na política externa. É o que diz Socorro numa entrevista em que também fez um balanço dos cinco anos do Cebrapaz.

“Sabíamos que o sucessor de Bush na Casa Branca, fosse ele democrata ou republicano, não modificaria a natureza do imperialismo. As agressões à soberania nacional, as guerras e as ocupações de território, os assaltos aos recursos alheios e a opressão são componentes do DNA do imperialismo”, sintetiza a presidente do Cebrapaz

O Cebrapaz completou cinco anos em dezembro. Qual é o legado a entidade até este momento?

O Cebrapaz absorveu a herança política do movimento pela paz. Esse movimento tem uma história muito rica e interessante. Um de seus marcos foi a fundação do Conselho Mundial da Paz, em 1950, na esteira da Guerra Fria. No mesmo ano, o Apelo de Estocolmo – um manifesto pela paz e contra a corrida armamentista – recebeu mais de 4 milhões de assinaturas.

O papel do Brasil sempre foi muito destacado. Basta ver que, desde o começo, (o pintor) Cândido Portinari, (o arquiteto) Oscar Niemeyer e (o geógrafo) Josué de Castro aderiram a essa luta, ao lado de outras personalidades brasileiras e também mundiais. Foi o caso também de nomes como (o físico alemão) Albert Einstein, (o pintor espanhol) Pablo Picasso e o casal (de cientistas Jean Frederic Joliot e Irene Joliot) Curie.

O Conselho Mundial da Paz e o movimento antiarmamentista tiveram mais impacto, naturalmente, durante a Guerra Fria, que durou até a queda do bloco socialista, no fim dos anos 80. Depois de quase 15 anos, o que deu novo impulso a essa luta foi a Era Bush e sua escalada bélica. A ocupação criminosa do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, provocou reações generalizadas e foi o estopim para o surgimento de entidades pela paz no mundo inteiro.

Sob o falso pretexto dos ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, a Casa Branca impôs ao mundo o terrorismo de Estado, marcado por guerras supostamente “preventivas”. George W. Bush passou por cima até da ONU, que vetou a ocupação do Iraque e, uma vez ignorada, teve seu papel reduzido. Os Estados Unidos se tornaram o principal promotor de guerras, e Bush passou para a história como o líder mundial que trocou o diálogo pela força.

Foi nesse contexto que fundamos o Cebrapaz, em São Paulo, no dia 10 de dezembro de 2004. Era cada vez mais necessário promover uma cultura de paz e de solidariedade entre os povos – além de fazer uma denúncia clara, firme e intransigente dos interesses estadunidenses naquele momento. O Cebrapaz se articulou a movimentos que, na América Latina e no mundo, apontavam a paz como condição essencial à própria sobrevivência física da humanidade.

Qual foi a singularidade do Cebrapaz?

O diferencial de nossa atuação foi alertar que o objetivo de Bush não era combater o terrorismo – mas, sim, promover o saque às riquezas dos povos e das nações. O orçamento dos Estados Unidos para a guerra é superior à soma do orçamento militar de todos os países. Veja que a Casa Branca só inclui no “Eixo do Mal” países independentes ou detentores de amplos recursos minerais – nações que não se submetem aos ditames estadunidenses.

O Cebrapaz acredita e afirma que a resistência a esse poderio depende da mobilização popular, do sentimento de solidariedade entre os povos. Nosso trabalho busca fortalecer e disseminar a paz pelo mundo. Em cinco anos, não paramos de promover manifestações, realizar conferências, lançar publicações.

Dá para dizer que sua eleição para a presidência do Conselho Mundial da Paz, em abril de 2008, é um respaldo à atuação do Cebrapaz?

O CMP já vem se fortalecendo há dez, 12 anos, mas a Conferência Mundial pela Paz, em Caracas, em 2008, foi muito simbólica. Desde a eleição de Hugo Chávez, dez anos antes, para a presidência da Venezuela, a América Latina assistiu à emergência de vários governos progressistas e soberanos, com compromisso pela paz.

O Brasil é peça-chave desse processo, por ter sido protagonista em várias iniciativas, como as lutas contra a Alca (Área de Livre-Comércio das Américas) e pela integração latino-americana. O Cebrapaz esteve presente nessas batalhas e contribuiu para essa nova configuração de nosso continente. Tudo isso se refletiu na nossa escolha para presidir o CMP.

Um ano depois da posse de Barack Obama na Casa Branca, qual é a avaliação que você faz da política externa dos Estados Unidos?

A vitória de Obama se deu num momento em que as palavras “Bush” e “Estados Unidos” eram as mais odiadas do mundo. Mas o povo americano também foi vítima de toda a parafernália da tal “guerra ao terror”. Dentro dessa política de guerra, houve diversas violações ao Estado democrático de direito. A população passou a ser vigiada e a ter correspondências e e-mails monitorados. Centenas de pessoas foram presas sem direito à defesa, nas chamadas “detenções administrativas”.

Obama acertou ao focar sua campanha na ideia de mudança – um conceito genérico, que, no entanto, ajudou a incorporar várias adesões. Sua gigantesca e poderosa mídia virou até um paradigma, pelo alcance que teve. E sua vitória, sem dúvida, foi acima de tudo a derrota da Doutrina Bush, o que pode ser visto como um fato positivo.

Mas nunca nos permitimos iludir quanto ao papel dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Sabíamos que o sucessor de Bush na Casa Branca, fosse ele democrata ou republicano, não modificaria a natureza do imperialismo. As agressões à soberania nacional, as guerras e as ocupações de território, os assaltos aos recursos alheios e a opressão são componentes do DNA do imperialismo. O que podíamos esperar de Obama era um pouco mais que acenos.

A América Latina exemplifica essas limitações?

A gestão Obama é um desastre para a América Latina. O golpe de Estado em Honduras foi um balão de ensaio – um teste para seu governo. Manuel Zelaya, o presidente hondurenho legitimamente eleito por seu povo, fazia uma administração progressista e soberana. Ele transformou a base aérea de Palmerola num aeroporto civil, aplicou uma política de valorização do salário mínimo e lançou seu país ao processo de integração da América Latina, para tirar Honduras do julgo imperialista.

Os Estados Unidos não só colaboraram com os militares golpistas que depuseram Zelaya como também não se esforçaram para solucionar a crise de Honduras. Com as eleições presidenciais de novembro, a Casa Branca conseguiu o que queria: dar uma aparência de saída democrática ao golpe – sem restituir Zelaya nem punir os golpistas.

Em Cuba, as restrições legais dos Estados Unidos diminuíram, mas o prolongado e criminoso bloqueio – que é o essencial, o que importa – continua de pé. Obama se deu um prazo de um ano para fechar a prisão de Guantánamo e não cumprirá a promessa.

Na América do Sul, a atuação de Hillary Clinton, secretária de Estado de Obama, e dos embaixadores estadunidenses é marcada pela provocação e por tentativas constantes de desestabilizar a ordem política. Eles insuflam os povos e as elites da região contra Evo Morales na Bolívia, Hugo Chávez na Venezuela, Rafael Correa no Equador. Com uma campanha de desinformação e elevado orçamento, disseminam ideias separatistas e subalternas.

A nova Constituição equatoriana proíbe a instalação de bases militares estrangeiras. É preciso apoiar medidas concretas do gênero, ainda mais quando Obama ameaça instalar sete bases navais na Colômbia e reativar a 4ª Frota, com seus navios modernos, porta-aviões e armas nucleares. Também apoiamos o fortalecimento de blocos e acordos como o Mercosul, a Unasul e a Alba, que vão de encontro aos interesses dos Estados Unidos.

No final de 2009, o Cebrapaz, ao lado de outras entidades brasileiras, lançou a campanha “América Latina é de Paz – Fora Bases Militares Estrangeiras”. Quais são os objetivos dessa iniciativa?

Nós entendemos as bases como parte do projeto do imperialismo estadunidense para garantir sua hegemonia. Há centenas de bases militares dos Estados Unidos pelos mundos – há quem fale em mais de 800. Não existe um único oceano sem o controle de suas frotas navais. É o mesmo objetivo da Doutrina Monroe: cercear, conter e impedir a luta dos povos latino-americanos soberania e saquear especialmente as fontes de recursos naturais.

A campanha “América Latina é de Paz” é um repúdio a essa nova ofensiva. Começou na Argentina, em 30 de novembro, e no Brasil, em 10 de dezembro. Entidades da CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais) se envolveram, bem como o Cebrapaz – incluindo seus 17 núcleos estaduais. No Fórum Social Mundial (de 25 a 29 de janeiro, em Porto Alegre), será a lançada a campanha continental, unificada, com tarefas centrais. Queremos impulsionar o compromisso dos presidentes e dos povos da região pela paz.

André Cintra 

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