Manlio Dinucci: Do Iraque à Líbia, a guerra dos vinte anos

A resolução do Conselho de Segurança que em 17 de março autorizou a tomar “todas as medidas necessárias” contra a Líbia lembra aquela que, em 29 de novembro de 1990, autorizava o uso de “todos os meios necessários contra o Iraque”.

Por Manlio Dinucci em “Il Manifesto”

Há vinte anos, aproveitando-se da desagregação da URSS e do seu bloco de aliança, os Estados Unidos e as maiores potências européias da Otan deslocavam o foco da sua estratégia no Golfo, atacando em 1991 o Iraque, um dos principais produtores petrolíferos com reservas estimadas entre as maiores do mundo. Hoje no alvo está a Líbia, cujas reservas petrolíferas são as maiores da África, o dobro das estadunidenses.

Há vinte anos, o inimigo número um era Saddam Hussein, antes aliado dos EUA na guerra contra o Irã (outro grande produtor de petróleo), quando neste país Khomeini estava no poder, guindado agora ao primeiro posto na lista dos inimigos. Como Saddam Hussein que caiu depois na armadilha, quando a embaixadora dos EUA em Bagdá tinha dado a entender que Washington ficaria neutra no conflito Iraque-Kwait. Hoje o inimigo número um é o líder da Líbia, Muamar Kadafi, com o qual a secretária de Estado Hillary Clinton declarava há pouco tempo querer “aprofundar e ampliar a cooperação”.

Há vinte anos, no momento em que o Conselho de Segurança autorizava a guerra contra o Iraque, os Estados Unidos e seus aliados já tinham deslocada no Golfo uma imponente força aeronaval (1.700 aviões e 114 navios de guerra), que seria usada mesmo sem a permissão da ONU. O mesmo ocorre hoje: antes da autorização do Conselho de Segurança a tomar “todas as medidas necessárias” contra a Líbia, já estava pronta uma potente força aeronaval dos EUA-Otan e já estavam ativadas para o ataque as bases na Itália. O método è o mesmo: jogar primeiro a espada sobre o prato da balança política e então usar todos os meios (inclusive a troca de “favores”) para impedir que um membro permanente do Conselho de Segurança use o “direito de veto”: em 1990 a URSS de Gorbachev votou a favor e a China se absteve; hoje a Rússia se absteve junto com a China, mas o resultado é o mesmo.

Hoje, como em 1990, a intervenção armada vem motivada com a “defesa dos direitos humanos” e a “proteção dos civis”. E são elogiados os governos árabes que participam desse nobre esforço: como a monarquia absoluta de Bahrein, que chamou as tropas sauditas para reprimir em sangue a luta do seu povo pelos mais elementares direitos humanos, e o regime iemenita que está perpetrando o massacre dos civis que se manifestam pela democracia.

Hoje, como na primeira guerra do Golfo e na sucessiva – aquela que se fez contra a Iugoslávia em 1999, o Afeganistão em 2001, o Iraque em 2003 – a Itália continua a desempenhar seu papel de seguidor das ordens de Washington. Com a diferença que, enquanto há vinte anos ainda havia uma esquerda empenhada contra a guerra, hoje existe um tipo como Bersani (dirigente do Partido Democrata italiano) que, na véspera de uma intervenção armada com a mesma finalidade, exclama: “em boa hora”.

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