Entidades da Sérvia e da Rússia realizam conferência internacional sobre as lições da Primeira Guerra Mundial

O Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais (Sérvia), o Centro da Glória Nacional e o Fundo St. Andrew (Rússia) organizaram em Belgrado a Conferência Internacional “Primeira Guerra Mundial – Mensagens à Humanidade”, para marcar o centenário da primeira grande guerra do século 20, em 16 e 17 de setembro. Mais de 100 convidados internacionais participaram da conferência, que contou também com a audiência de mais centenas de sérvios, de acordo com a organização, entre diplomatas, historiadores, analistas e figuras públicas da Sérvia, da Rússia e outros 15 países da Europa, América e Ásia. A presidenta do Conselho Mundial da Paz e do Cebrapaz, Socorro Gomes, também enviou sua contribuição.

Leia a seguir a mensagem enviada por Socorro à conferência:

Queridos camaradas e amigos; 

A reunião neste local é simbólica para o centenário de uma das primeiras tragédias do século passado, a Primeira Guerra Mundial. Há 100 anos, uma corrente de conflitos menores e de eventos significativos fazia eclodir este grande enfrentamento. O assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro foi o pretexto para a invasão agressiva contra a Sérvia. Naquele contexto geopolítico, o envolvimento da Alemanha e de outros atores no confronto era previsível.

A relevância deste centenário intensifica-se quando analisamos nosso contexto atual. As articulações imperialistas, embora com adaptações que levaram em consideração as dinâmicas da política internacional, são razoavelmente evocativas de uma lógica retrógrada, através do posicionamento das potências num mundo em que acreditam ter o direito e até o dever de se impor.

Em 1914, o imperialismo alemão já indicava o prelúdio de grandes confrontos que imporiam grande sofrimento aos povos, de forma tão avassaladora e generalizada que se torna inevitável e necessária a constante referência aos eventos que levaram à Primeira Guerra e que dela resultaram, com um saldo superior a 10 milhões de mortes.

O posicionamento da Rússia a favor da Sérvia, em resposta à declaração de guerra do Império Austro-Húngaro secundado pela Alemanha, apresentava a configuração inicial de um conflito que tomaria, rapidamente, maiores dimensões. O envolvimento do Império Otomano e do Japão, assim como as disputas colonialistas pela dominação de territórios na África logo deram os contornos que garantiram a este conflito a caracterização de uma guerra mundial.

Como nos dias de hoje, aquele período foi marcado por uma crise econômica de caráter estrutural. Os conflitos subsequentes são frequentemente passíveis de análise sob esta ótica de uma falência contínua do modelo capitalista, não apenas do mercado global, mas também do paradigma das relações internacionais. O imperialismo, neste sentido, é marca patente da busca pela expansão, imposição e sustentação deste modelo de exploração dos povos e de agressão constante.

Embora tenham sido as potências europeias as diretamente envolvidas, inicialmente, neste confronto, a emersão dos Estados Unidos enquanto potencial ator global já era marcante. Discussões internas entre correntes políticas opostas já cunhavam não só o linguajar do que seria em breve uma potência imperialista, mas também os discursos fundamentalistas que levariam o seu próprio povo a aceitar o intervencionismo generalizado e o armamento de um país que, havia pouco, se preocupava com a independência e a não ingerência nos assuntos alheios.

Por isso, companheiros, a Primeira Guerra Mundial é um evento, em vastas proporções, inaugural de uma ordem mundial com novos atores à frente das ameaças contra os povos de todo o planeta. O desenrolar dos conflitos e batalhas durante os quatro anos de confronto abriram as portas para discursos sobre o compromisso de evitar que tragédias como essa se repetissem, mas também para o posicionamento das potências em alianças escusas e agendas de dominação ainda verificadas.

Desde anos anteriores, a guerra entre a Rússia e o Japão, entre os Estados Unidos e a Espanha pelas Filipinas, a ocupação da Coreia pelo Japão, a anexação da Bósnia e Herzegovina pelo Império Austro-Húngaro, a guerra declarada pela Itália contra a Turquia pela posse do que viria a ser a Líbia, entre outros conflitos e avanços imperialistas levaram a uma corrente acelerada que eclodiu na grande guerra.

Como no momento atual, a crise econômica, a busca pela expansão territorial – seja através da anexação, como então, ou da imposição de agendas próprias, como hoje – e o armamento acelerado – em quantidade ou tecnologia de destruição – eram pontos representativos de um contexto de tensões e do recurso à ameaça belicosa.

Também como hoje, entretanto, já havia vozes contrárias à imposição das guerras aos povos. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, na Alemanha, não apenas arregimentaram apoio massivo na oposição à guerra e ao investimento acelerado no setor militar, mas também lutavam pela promoção de alternativas a um mundo de ameaças e exploração. A justiça, a dignidade dos trabalhadores, o respeito aos povos e a luta pela paz ganhavam força na pauta de movimentos sociais e de grupos políticos relevantes, o que causou a reação agressiva da elite política e econômica, culminando no assassinato de Rosa e Karl.

Na Rússia, o povo também se revoltou contra um regime despótico assentado na exploração, que impôs a guerra e condenou à morte milhares de russos. Por isso, um levante massivo e heroico mostrou que a resistência popular poderia levar a uma mudança estrutural, que efetivasse alternativas soberanas e que primasse pelo desenvolvimento partilhado entre o povo, em detrimento do investimento humano e econômico na guerra, em defesa dos interesses das elites. Os trabalhadores deram um basta à sua própria exploração pelo esforço belicista.

No contexto em que vivemos, vemos a repetição da história.

Neste ano, também marcamos os 75 da Segunda Guerra Mundial que, para muitos, foi mais uma continuação da primeira e uma peça na corrente de articulações que a elite formulou para sobreviver a mais uma grande crise, a de 1929. Naquele momento, não apenas as potências europeias, mas também os Estados Unidos já recorriam à agenda imperialista da guerra para conter a sua queda. O avanço nazista e fascista sobre os povos da Europa e, novamente, do mundo, impôs novos terrores à humanidade, causando mais de 60 milhões de mortes e uma sequência de ações ou imposições belicosas que abririam precedentes inimagináveis, como o uso da bomba nuclear.

A partir de então, o recurso a esta arma de destruição massiva viria a constituir um elemento central da política externa dos Estados Unidos, que investiam na ameaça – fantasiada de “dissuasão” – para impor a sua agenda política e econômica ao mundo. Para isso, foi instrumental a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma máquina de guerra construída pelas potências poucos anos depois de seus líderes discursarem sobre a paz mundial, no nascimento da Organização das Nações Unidas (ONU). A hipocrisia é gritante, companheiros.

Hoje, os Estados Unidos e as potências europeias, que continuam impondo a sua presença econômica e militar pelo mundo, violando soberanias a seu gosto e articulando alianças inimagináveis, continuam ressuscitando este monstro, novamente à custa, inclusive, dos seus próprios povos.

Além de estenderem seus chamados “Conceitos Estratégicos” de atuação belicosa e posicionamento imperialista em sua área geográfica reiteradas vezes durante a chamada “Guerra Fria”, com ameaças diretas à União Soviética e aos que não se curvassem aos seus desígnios, desde a década passada, os líderes da Otan passaram a impor oficialmente esta lógica ao resto do mundo.

Foi assim em 2010, com um novo conceito que expandia o seu quadro de intervenções e ameaças militares de agressão por todo o globo, e também na última Cúpula, no País de Gales, no início do mês. Ao contrário das manifestações massivas em seus próprios países, os líderes dos Estados Unidos, do Reino Unido e de outras potências europeias, agenciados pelo secretário-geral da Otan, Anders F. Rasmussen, decretaram mais sofrimento, empobrecimento e ameaça contra o mundo e contra seus próprios cidadãos, ordenando o maior investimento em sua máquina de guerra.

Por uma Otan “mais robusta” e que poderá “agir rapidamente” em agressões que decidirem lançar contra qualquer canto do globo, os líderes imperialistas comprometeram-se a gastar 2% do seu PIB na guerra. Isto se dá, companheiros, enquanto os povos da Europa e dos Estados Unidos já se rebelam contra a sua exploração acentuada desde uma crise criada pela elite e pelos grupos financeiros, que eclodiu há cinco anos. Além de imporem o desemprego e o empobrecimento aos cidadãos, seus líderes impõem-lhes também a guerra.

Apenas em 2013, o orçamento da Otan – que já mantém dezenas de milhares de tropas, tanques, caças, frotas navais e drones agredindo diversos países e povos – foi de US$ 1,023 trilhões, dos quais US$ 753,6 bilhões foram depositados apenas pelos Estados Unidos. Embora os apelos globais contra os gastos militares tenham se intensificado consideravelmente, os porta-vozes dos Estados Unidos e da ONU intimaram os membros europeus da Otan a aumentar suas despesas no setor militar.

Neste espectro, vemos as ameaças imperialistas proliferarem-se, impondo mais agressões e revivendo aquelas que causaram a tragédia para tantos povos, como é o caso do Iraque, do Afeganistão e da Palestina, além dos vários e intensos conflitos na África. Além disso, o ressuscitar de lógicas retrógradas também levaram os membros da Otan a ameaçar novamente a Rússia, posicionando tropas nas suas fronteiras, usando como pretexto a crise na Ucrânia, uma situação criada pelo próprio império, em articulação reveladora com os grupos fascistas.

Seguimos lutando por um sistema mais justo e representativo de relações internacionais, mas as ameaças são desafiadoras, em um quadro em que as potências pretendem manter seu domínio sobre o planeta, custe o que custar. É conhecida a articulação entre o imperialismo e as elites exploradoras, os grupos fascistas, os extremistas e os colonizadores, como é o caso de Israel, que voltou a impor o massacre do povo palestino e a ocupação das suas terras.

Cabe a nós, movimentos globais de luta pela paz, unificarmos na resistência e na proposta de alternativas a um modelo de política internacional fracassado, que serve apenas aos interesses do império, da guerra e da agressão às nações, comercializando a sua morte e o seu empobrecimento com a indústria bélica e o mercado financeiro.

Por isso, reafirmamos, companheiros, no centenário da primeira tragédia do século 20, quando conhecemos a devastação da qual se alimenta o imperialismo, que ele não é invencível. Juntos, os povos podem vencê-lo!

Socorro Gomes
15 de setembro de 2014 

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