Presidenta do Cebrapaz e do CMP concede entrevista na Índia

Socorro Gomes, presidenta do Cebrapaz e do Conselho Mundial da Paz, deu uma entrevista para o jornal indiano The Goan para discutir a paz e seus maiores obstáculos: a OTAN e os Estados Unidos da América. Socorro falou com a reportagem do diário enquanto participava da reunião do Comitê Executivo do CMP em Goa, na Índia, entre 26 e 28 de novembro. Leia a seguir a entrevista:  

O Conselho Mundial da Paz é uma organização que surgiu em 1950, para promover a paz em todo o mundo e opor-se ao belicismo dos Estados Unidos. O órgão tem estado na vanguarda dos protestos pela paz e contra conflitos em todo o mundo, em lugares como Egito, Síria, Jordânia, Turquia e na Palestina.

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A Índia é um dos 102 países-membros do Conselho. O Conselho Mundial da Paz se reuniu em Goa, na Índia, e teve como objetivo debater o movimento pela paz, na esperança de cumprir as suas tarefas, e promover a solidariedade entre os povos. Socorro Gomes, atual presidenta do Conselho Mundial da Paz, deu uma entrevista para o jornal indiano The Goan para discutir a paz e seus maiores obstáculos, a Otan e os Estados Unidos da América.

The Goan: Qual é o principal objetivo do Conselho Mundial da Paz no mundo de hoje?
Socorro Gomes: O nome da instituição é autoexplicativo. A organização nasceu após a segunda guerra mundial, depois do terrível impacto do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos. Não havia necessidade disso. A guerra já estava perdida pelo Japão. Assim, o Conselho Mundial da Paz (CMP) foi formado para evitar uma 3ª guerra mundial. Os trabalhadores, professores, jovens, homens da ciência, decidiram construir o Conselho. Tentamos construir um mundo de paz, entre os povos e as nações. Estamos guiados por nossos princípios – o respeito à autodeterminação das nações e dos povos, a não ingerência e a paz. Opomo-nos à guerra, à militarização, ao colonialismo e todos os tipos de opressão. Acreditamos que essa é a única forma das pessoas alcançarem a paz.

Com tanta instabilidade, conflito e violência desnecessária em todo o mundo, quão realista é a ideia de paz?
É essencial para a sobrevivência da humanidade. Agora a paz não é a realidade que estamos vivendo. Agora, a realidade é completamente o oposto. Hoje nós temos uma potência imperialista, os Estados Unidos, potências aliadas e outros na Europa, que usam ameaças e agressões, alimentando e financiando conflitos regionais e guerras, na África, no Oriente Médio e tentam estender seu alcance para a Europa Oriental e também para a América Latina. O objetivo dessas potências, lideradas pelos Estados Unidos, sob o pretexto da democracia e da defesa dos direitos humanos, ou direitos civis, na verdade é apenas um, a dominação de países e povos, como eles fizeram no Iraque. Era mentira que eles estavam indo para defender os direitos humanos no Iraque. Eles alegaram que o governo iraquiano tinha armas químicas, mas seu propósito era destruir o país e fizeram isso juntamente com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e os seus aliados europeus. Seu único propósito era saquear os recursos energéticos. A mesma coisa aconteceu na Líbia, no Afeganistão e na Síria.

Então os maiores agressores são os Estados Unidos?
Eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso. O Conselho Mundial da Paz não tem nenhuma dúvida sobre isso. Eles têm uma aliança para o crime, contra a paz e contra os povos. Estas alianças são entre os Estados Unidos e as potências europeias que são membros da Otan. Os norte-americanos possuem mil bases em territórios estrangeiros pelo mundo. Quantos outros países têm bases estrangeiras nos EUA? Eles controlam a política e o que acontece na Otan, que é uma máquina de guerra. Eles têm uma longa lista de crimes inconfessáveis contra a humanidade. A Iugoslávia foi destruída pela Otan. Mesmo com Barack Obama a agressão continua, e tem até mesmo se intensificado.

Mas esses países têm membros no Conselho Mundial da Paz?
Sim, claro. Os Estados Unidos têm organizações que apoiam nosso trabalho, mas estas organizações e os povos também são vítimas desses governos. Os povos também querem a paz.

Então, o que o Conselho Mundial da Paz faz nestes países?
A nossa principal luta é a luta pela consciência, uma batalha de ideias para denunciar os crimes contra os povos, contra as nações e contra a paz. Tentamos falar com tantas pessoas quanto possível. O nosso primeiro presidente, Frédéric Joliot-Curie, físico francês, disse que a tarefa de construir a paz não é a tarefa de uma pessoa sozinha, mas a tarefa de todos os povos juntos. As mudanças só ocorrerão com a intervenção dos povos. Nós promovemos manifestações públicas pela paz, sejam na Europa, ou na América do Norte e América Latina. Fazemos isso em solidariedade com as vítimas de agressões. Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, havia milhões de pessoas nas ruas e agora com a Síria, há solidariedade com o país em todo o mundo. Temos realizado ações pelo Estado palestino. Povos de todo o mundo exigem um Estado palestino soberano. Então agimos em conjunto com outros movimentos e organizações para fortalecer o movimento pela paz.

Que tipo de relação o órgão tem com as Nações Unidas?
Nós somos parte de um conselho da Organização das Nações Unidas, o Ecosoc. Estamos presentes em várias comissões, como as do trabalho, dos direitos humanos e a Unesco. Temos um estatuto consultor nestas iniciativas.

O quão bem sucedido é o Conselho nestas iniciativas, especialmente se pensarmos que a ONU apoia os EUA em seus empreendimentos?
O Conselho de Segurança das Nações Unidas tem sido manipulado pelas grandes potências. Um exemplo disso é que ano após ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas vem decidindo que o bloqueio a Cuba não pode continuar por mais tempo. Os países membros condenaram-no. Mas, dentro do Conselho de Segurança o fim do bloqueio sempre foi vetado pelos os EUA. Outro exemplo, desde os anos 1940, várias organizações da ONU elaboraram centenas de documentos sobre as violações dos direitos humanos por parte de Israel em relação ao povo palestino, mas, mesmo assim, Israel, por meio do terrorismo de Estado, por meio das armas e da força bruta, com a construção de assentamentos, segue impondo o medo, continua a expandir a sua ocupação em terras palestinas. Existe essa fragilidade na forma como a Organização das Nações Unidas está organizada.

É o dinheiro o maior iinimigo da paz hoje?
É a ganância. A busca de riquezas e por acumulá-las. Um sistema baseado na exploração e opressão de pessoas para enriquecer alguns. Este é o problema do presente sistema. A religião também é usada, às vezes, como desculpa, como motivação. No entanto, não é a religião que é o problema, e sim o uso criminoso da religião que é errado.

Como é que os EUA impõem sua autoridade sobre os países?
Esses países são vítimas dos Estados Unidos. Alguns os EUA são capazes de subjugar, através de uma mudança de regime, especialmente no Oriente Médio. Esta região é muito rica em recursos naturais, gás e petróleo, e os EUA precisam de um monte desses recursos, uma vez que eles têm uma economia baseada no consumo. Eles precisam continuar sendo um grande império. Eles têm feito isso no Oriente Médio e agora estão ofensiva contra ex-repúblicas soviéticas para se apossar do petróleo e do gás. Eles fazem isso em nome da segurança nacional, alargando a sua esfera de influência ao redor do mundo. Eles são a maior potência militar do mundo, gastam 48% do orçamento bélico do mundo. Na América Latina, nós também somos vítimas dessa política, desta estratégia de dominação. A Colômbia foi uma vítima desta política, a Venezuela também, por causa do petróleo. Mas a América Latina já se afastou deles.

Se você tivesse que indicar uma lista de soluções, o que um país ou os povos precisam fazer pela paz?
Respeitar um país, não interferir nos problemas internos, respeitar a integridade territorial, a cultura e a religião de cada um. Cada país, seja grande ou pequeno, deve ser tratado como um igual, o diálogo para resolver os conflitos deve ser justo, deve haver justiça. Como consequência disto, o fim das armas de destruição em massa. A Otan deve ser desmantelada. As bases militares estrangeiras devem desaparecer.

Entrevista e foto: The Goan

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