Obama busca poderes autocráticos para mais uma guerra no Oriente Médio

O presidente dos EUA Barack Obama deve buscar uma autorização formal no Congresso apresentando como objetivo o combate ao autodenominado “Estado Islâmico”. Interessa notar que árabe-falantes referem-se ao grupo como Da’esh (acrônimo, em árabe, de “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”), o que soa parecido com palavras como da’es (aquele que pisoteia ou esmaga algo, do verbo da’asa, esmagar, pisotear). Semântica e sintaxe interessam ao poder quando podem ser instrumentalizadas. Por isso a empreitada de Obama tem como objetivo a autorização à guerra, com uma resolução que não permitirá “forças terrestres em ofensiva duradoura” e limitará a campanha a três anos, para “combater o terrorismo”. Esta teria sido sua forma de procurar um termo comum entre oponentes (alguns democratas) e simpatizantes (republicanos) da proposta.

Por Moara Crivelente*

O debate, segundo o diário estadunidense The New York Times (NYT), em artigo desta quarta-feira (11/02), será sobre os poderes presidenciais e sobre a recorrência no erro de “comprometer-se em outra missão imprevisível no Oriente Médio, enquanto a nação ainda lida com as consequências de duas guerras prolongadas”, no Afeganistão e o no Iraque. Por “nação”, claro, refere-se aos estadunidenses, com custos políticos, econômicos e humanos em mente. Quase sete mil soldados norte-americanos morreram nos dois países.

Os estimados 114 mil iraquianos mortos entre 2003 e 2012 e a devastação da infraestrutura, a desestabilização da sociedade e da economia e os efeitos políticos sobre o próprio Iraque, por exemplo, ou o Afeganistão, deixado à míngua, não são tão relevantes na tomada de decisão sobre mais uma guerra, imposta à região como se fosse um remédio amargo pelos próprios autores da tragédia ali inscrita.

Emissora CNN noticiou o início dos ataques aéreos dos EUA contra regiões da Síria em 8 de agosto de 2014
com abordagem ‘estratégica’ e reproduzindo o discurso oficial sobre a adesão de ‘países árabes’ à ofensiva,
para dar-lhe legitimidade.

O voto no Congresso a ser solicitado por Obama tem destaque porque remete à solicitação feita por George W. Bush em 2003, na novela de ficção sobre as supostas “armas químicas” possuídas pelo presidente iraquiano Saddam Hussein. O desfecho desta história é conhecido. Mesmo assim, a insistência na guerra é intrínseca à política externa norte-americana, estejam democratas ou republicanos no poder. Ao menos nos salões do Congresso, o que se pondera são cifras e custos políticos. Nas ruas, é outra história.

Segundo o NYT, ficaria ainda uma autoridade ampla para “combater o terrorismo”, garantida a Bush em 2001, “que alguns democratas acreditam estar sendo interpretada de forma demasiado abrangente para justificar ações militares que nunca foram o objetivo.” Esta sim é uma manchete, mas ficou no lugar de contraponto inserido no artigo. Essa denúncia é feita por movimentos anti-imperialistas de todos os cantos do planeta desde o anúncio da guerra contra o Afeganistão, enquanto pasmavam diante do massacre da “democracia moderna” com um “Ato Patriota” (decreto assinado por Bush em 2001 e estendido até julho de 2015 por Obama) para conceder prerrogativas autocráticas ao presidente dos EUA e aos seus serviços de inteligência (espionagem) contra o mundo.

Agora que notícias sobre uma recuperação econômica nos EUA já foram disseminadas, nem tanto “a crise” quanto as preocupações políticas em casa é que determinam os debates. Alguns têm dúvidas sobre o quanto estariam dispostos a sacrificar para “salvar” o Oriente Médio do extremismo apresentado cinicamente como inerente à região. Ainda assim, segundo as fontes do NYT, a linguagem da resolução a ser apresentada pelo governo Obama procura abarcar as posições dos “intervencionistas” e dos “não-intervencionistas. O detalhe está nas entrelinhas: a “abrangência” da proposta inclui a definição de um combate contra o “Estado Islâmico” (EI) e “forças associadas”, sem limitações geográficas ou maior precisão sobre essas forças. Até o momento, os movimentos de resistência libanês Hezbollah e o palestino Hamas ainda são listados como “terroristas”, por exemplo.

A revista Foreign Policy questionou uma fala do presidente sírio Bashar Al-Assad em entrevista recente, quando disse receber informações dos próximos ataques aéreos dos aliados contra o EI, aos quais a Síria não de apoio, travando sua própria luta contra o terrorismo disseminado. A problemática parece ser a percepção de “coordenação” entre o governo estadunidense e o sírio, taxado pelo primeiro de “regime ditatorial”, como em tantos outros casos da mesma agenda de derrubada das forças não alinhadas. De acordo com o presidente Assad, as informações são repassadas pelas autoridades iraquianas.

O governo Obama afirma não precisar da autorização do Congresso para seguir promovendo a guerra, e os ataques aéreos contra regiões do Iraque e da Síria já estão acontecendo há seis meses. Por outro lado, sua iniciativa demonstra preocupação com a falta de apoio político, devido ao histórico recente de fracassos. Obama pretende dividir o fardo, sabendo da crescente oposição doméstica e internacional. Ele procura legitimidade para mais uma guerra porque – apesar de seus discursos presunçosos sobre uma “América” virtuosa em missão libertadora – sabe que não a possui.

*Moara Crivelente é cientista política e jornalista, membro do Cebrapaz na assessoria à presidência do Conselho Mundial da Paz.

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