Comitê parlamentar britânico admite que a guerra contra a Líbia foi movida a mentiras e detalha os papeis na agressão

Após o relatório sobre a conduta execrável do então primeiro-ministro britânico Tony Blair durante a invasão do Iraque, em 2003, o Reino Unido confronta-se agora com um novo documento, publicado em 14 de setembro de 2016. O texto detalha como a guerra contra a Líbia, em 2011, promovida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), foi movida a mentiras. Outra conclusão óbvia, que ecoa denúncias da mídia alternativa e dos movimentos anti-imperialistas, é a de que o então presidente Muammar Kaddafi não planejava um massacre, como alegou-se então, e que a situação na Líbia só piorou desde a sua derrubada e execução.

O relatório resultou de uma investigação lançada em julho de 2015 e conduzida pelo Comitê de Relações Exteriores da Câmara Baixa do Parlamento britânico. O documento, já citado por vários meios de comunicação internacionais, admite que não foram encontradas evidências de que o governo britânico tenha conduzido análise adequada da natureza da rebelião na Líbia. “A estratégia do Reino Unido foi baseada em suposições incorretas e um entendimento incompleto da evidência.”

O texto é intitulado “Líbia: Exame da intervenção e do colapso e as futuras opções de políticas do Reino Unido” e foi elaborado pelo comitê bipartidário, cuja investigação incluiu entrevistas com políticos, jornalistas, acadêmicos, entre outros. Entre as principais conclusões, podem-se enumerar as seguintes, de acordo com o portal de análises Salon e outros meios internacionais:

– Kaddafi não planejava um massacre de civis, como denunciavam os “rebeldes” e os governos ocidentais.

– A ameaça de extremistas islamitas foi ignorada e piorada pelos bombardeios da Otan, o que resultou na disseminação do auto-proclamado Estado Islâmico no Norte da África.

– A França, que iniciou a intervenção militar, foi motivada por interesses políticos e econômicos, e não humanitários.

– A revolta, que foi violenta, não pacífica, provavelmente não teria sido bem-sucedida se não fosse pela intervenção militar e assistência estrangeira. A mídia estrangeira, particularmente a Al-Jazeera, do Catar, e Al-Arabiya, da Arábia Saudita, também espalharam rumores não fundamentados sobre Kaddafi e o governo líbio.

– Os bombardeios da Otan mergulharam a Líbia num desastre humanitário, matando milhares de pessoas e forçando centenas de milhares a se deslocar, transformando a Líbia do país africano com o mais alto padrão de vida em um Estado fragmentado pela guerra.

Segundo o relatório, o mito sobre o plano de Kaddafi para um massacre em Bengazi – a segunda maior cidade líbia – não apresentava evidências. A falta de informações é contraposta, no texto, à descrição da intervenção pelos agentes dos serviços estadunidenses como uma “decisão de inteligência superficial.”

Em março de 2011, de acordo com o relatório, dois dias antes do início dos bombardeios da Otan, Kaddafi dissera aos rebeldes em Bengazi que deixassem as armas, “exatamente como seus irmãos em Ajdabiya e outros lugares. Eles baixaram as armas e estão a salvo. Nós não os perseguimos, de forma alguma.” O comitê britânico confirma que a retomada da cidade de Ajdabiya, no mês anterior, não foi sucedida por perseguição aos rebeldes. Kaddafi “também tentou apaziguar os manifestantes em Bengazi com a oferta de assistência ao desenvolvimento antes de enviar tropas.”

https://i.guim.co.uk/img/static/sys-images/Guardian/Pix/pictures/2011/6/5/1307303764595/William-Hague-007.jpg?w=620&q=55&auto=format&usm=12&fit=max&s=817cfee3957a91fa2e622d92ea5f0c5cO documento ainda reconhece que não havia evidências para a alegação de que Kaddafi atacava civis indiscriminadamente e que as reais ações do presidente líbio não foram propriamente avaliadas pelo Parlamento britânico, mas os mitos disseminados basearam-se “na sua retórica”, descontextualizada. O então secretário de Estado britânico para Relações Exteriores, William Hague (foto), foi citado no relatório como um dos que reproduziram incorretamente falas de Kaddafi.

Na contramão das alegações, George Joffé, da Universidade de Londres, entrevistado pelo comitê, disse que, embora a retórica de Kaddafi pudesse soar intimidatória, ele foi, na verdade, “bastante cuidadoso” ao evitar mortes de civis. Por exemplo, o pesquisador cita o esforço do então presidente ao tentar pacificar as tribos em Cyrenaica, no leste, durante seis meses, ao invés de investir militarmente.

Outros especialistas citados no documento dizem que as ameaças de que falavam líbios opositores na diáspora ou mesmo dos “rebeldes” cujas narrativas eram reproduzidas pelos meios ocidentais de comunicação foram “exageradas”, amplificando um mito que levou à violência extrema, inclusive com a prática dos rebeldes de perseguir e atacar imigrantes trabalhadores de outros países africanos, acusando-os de terem sido convocados por Kaddafi.

Estados Unidos, França e Reino Unido promovem a “mudança de regime”

Em março de 2011, a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, taxou Kaddafi de uma “criatura” que “não tem qualquer consciência e vai ameaçar qualquer um em seu caminho.” Ela teve um papel protagonista na promoção dos bombardeios da Líbia pela Otan, alegando que o presidente faria “coisas terríveis” se não fosse detido, recorda o Salon. Hillary participou inclusive na disseminação do mito de que Kaddafi incentivava suas tropas a violar mulheres nas áreas controladas pelos rebeldes.

Os bombardeios da Otan contra a Líbia duraram mais de seis meses, de março a outubro de 2011, quando Kaddafi foi arrastado para a rua em sua cidade natal, Sirte, e executado em público pelos rebeldes. Hillary Clinton teria comemorado a execução ao vivo, na televisão, de acordo com Salon.

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A então secretária de Estado em Trípoli, Líbia, em 18 de outubro de 2011.

Esta foi mais uma das “intervenções” da Otan vendidas para consumo internacional como uma missão “humanitária”, lançada inicialmente pela França e estendida pela Otan. “A intervenção limitada, para proteger civis [supostamente, em Bengazi], tornou-se uma política oportunista para a mudança de regime,” afirma o documento do comitê parlamentar. Citado pelo Salon, entretanto, Micah Zenko, do Council on Foreign Relations, refere-se a documentos da própria Otan para afirmar que “a intervenção na Líbia foi destinada à mudança de regime desde o começo.”

O texto do comitê parlamentar britânico ainda confirma que a França liderou os esforços por uma intervenção militar contra a Líbia, seguida pelo Reino Unido e, depois, pelos Estados Unidos. As motivações francesas foram identificadas no documento como “os recursos financeiros quase infinitos” de Kaddafi, seus planos para criar uma moeda alternativa ao franco francês na África, seu projeto de suplantar o poderio da França na África francófona e o desejo francês de aumentar sua influência no norte africano.

Inicialmente inseguro sobre a agressão devido a divisões internas, o governo estadunidense foi, depois da pressão franco-britânica pela imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, essencial para a extensão dos termos da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, para incluir a permissão à tomada de “todas as medidas necessárias para proteger civis.”

Em um email à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, seu assistente, Sidney Blumenthal, é citado mencionando os recursos “quase infinitos” do filho de Kaddafi, fazendo referência a uma reserva em ouro que seria destinada ao estabelecimento de uma moeda pan-africana baseada no dinar líbio. Esta seria uma alternativa oferecida aos países africanos que ainda usavam o franco francês. Os agentes de inteligência da França, de acordo com o relatório, citando Blumenthal, descobriram o plano pouco depois do início da rebelião, o que teria sido um dos motivos para o então presidente Nicolás Sarkozy promover a agressão militar.

De acordo com o Salon, o comitê resume a situação humanitária atual na Líbia com uma referência à fala do presidente estadunidense Barack Obama, de abril de 2016, quando ele a classificou de um “show de merda”.

O país está fragmentado e a situação possibilitou a disseminação de grupos extremistas como o “Estado Islâmico”. Um oficial da Defesa britânica citado pelo relatório diz que o envolvimento de grupos ligados à rede terrorista Al-Qaeda com os rebeldes apoiados pela Otan “não estava claro” à época. A destruição causada pela Otan ainda possibilitou que as grandes reservas de armamentos e munições da Líbia fossem parar nas mãos das milícias ou traficadas por todo o norte e ocidente africano e também no Oriente Médio, reconhece o documento.

Por Moara Crivelente, Cebrapaz

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