“Paz, a mais bela das tarefas”: FARC fundam partido com base em compromissos revolucionários

Timoleón Jiménez, dirigente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), descreveu assim o desafio no Congresso iniciado neste domingo (27) de fundação do partido, que manterá o acrônimo e o compromisso histórico no âmbito da política institucional, após a assinatura dos acordos com o governo de Juan Manuel Santos. A paz é, disse Jiménez, “a mais formosa das tarefas” do novo partido.

Em 27 de julho, a Declaração Política da última plenária do Estado Maior Central das FARC-EP delineava os compromissos e tarefas a consolidar no congresso deste domingo. Para a estratégia política, o documento afirmava o compromisso, de prazo imediato, com um “governo de transição, de ampla convergência e grande coalizão democrática”, o que fundamentará a participação do novo partido nas eleições de 2018.

Na declaração, as FARC afirmam-se fiéis à labuta por unidade nacional do campo popular e democrático, “sempre sob o entendimento de que as definições e acordos programáticos devem estar à altura do momento histórico,” que na atual conjuntura “oferece uma oportunidade excepcional para produzir um avanço democrático” na Colômbia. (Leia a íntegra do texto aqui, em espanhol)

Mais de mil delegados e 200 convidados participam do Congresso, inclusive a ex-presidenta do Cebrapaz, Socorro Gomes. Em declarações ao portal Resistência, Socorro descreveu o ambiente de entusiasmo com o “passo decisivo para a constituição de um instrumento político capaz de encarnar, ao lado de outras organizações populares, os sonhos e as esperanças revolucionárias do povo colombiano.”

Ao converterem-se em partido político, as FARC-EP seguirão exercendo suas atividades “por meios legais”, pontuou Jiménez, também conhecido como Timochenko. “Isso não significa que reununciemos de algum modo a nossos fundamentos ideológicos nem ao nosso projeto de sociedade.”

“Seguiremos sendo tão revoucionários como marquetalianos, persistiremos em manter as bandeiras bolivarianas e as tradições libertárias do nosso povo, para lutar pelo poder e levar a Colômbia ao exercício pleno da sua soberania nacional e a fazer vigente a soberania popular,” garantiu.

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Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos (esq.), o dirigente das FARC-EP, Timoleón Jiménez (dir.) e o presidente cubano Raúl Castro (meio) cumprimentam-se pelo processo de paz.

Manuel Marulanda Vélez (Pedro Antonio Marín), fundador das FARC-EP, foi recordado pelo portal de notícias oficial do exército popular, com a citação: “Minha maior satisfação é vê-los de todo o coração comprometidos, sem descanso, em uma constante luta pelas mudanças pelas quais muitos combatentes ofereceram suas vidas, motivados na grande causa da paz, com justiça social e soberania.”

Correspondente foi o compromisso expresso por Jiménez de que as FARC seguirão “lutando pelo estabelecimento de um regime político democrático que garanta a paz com justiça social, respeite os direitos humanos e um desenvolvimento econômico com bem-estar para todos os que vivemos na Colômbia.” Leia a íntegra de seu comunicado (em espanhol).

Ivan Márquez, o chefe da delegação diplomática das FARC durante as negociações conduzidas em Havana desde 2012, disse no primeiro dia do Congresso que o compromisso é por “encerrar meio século de luta armada e rebeldia contra o regime, direito universal ao que recorremos em defesa da dignidade humana e em demanda por justiça, paz e democracia para a Colômbia.”

Márquez enfatizou ainda, em seu informe central, que “ninguém deve se esquecer de que a organização que hoje se coverte em partido político legal nasceu em 1964 como resposta à agressão militar contra a região de Marquetalia, ordenada pelo presidente da Frente Nacional, Guillermo León Valencia.”

Os dirigentes das FARC destacaram seu compromisso com o desafio de lançar e fortalecer a Grande Convergência Nacional com que participarão da política institucional como partido, enfatizando a grande vitória da celebração do Congresso em plena capital colombiana, Bogotá, enquanto pontuavam os novos desafios.

O Cebrapaz, assim como outros movimentos solidários à luta do povo colombiano pela paz com justiça social, enfatiza reiteradamente a importância deste processo para toda a América Latina e a conclusão de mais de cinco décadas de conflito armado, em que a ação brutal das forças paramilitares e a perseguição e repressão sistemáticas e violentas por parte do Estado colombiano contaram com o apoio direto dos Estados Unidos, promovendo a militarização profunda da política e da região.

Em 2017, como parte do processo de paz, as FARC-EP entregaram suas armas, demandando compromisso do governo com o combate aos grupos paramilitares e com a verdade, a anistia e a construção de uma paz justa. Veja o avanço temporal da implementação do acordo assinado em 2016, em Havana, entre o exército popular e o governo, e cujo texto pode ser consultado aqui (em espanhol).

De acordo com organizadores do Congresso, em declarações à Prensa Latina, o encontro, que termina em 1º de setembro, “é um momento culminante após a assinatura dos Acordos de Paz”. É a conclusão formal de um conflito que matou mais de 220 mil pessoas, provocou o deslocamento de 5,7 milhões de colombianos e colombianas e ainda tem 25 mil desaparecidos, um processo cuja memória e verdade serão alguns dos pilares da construção da paz com justiça social.

Cebrapaz,
Moara Crivelente